|
Uma história a ser
contada
Por Rodolpho Gauthier
A história da ufologia no
Brasil já foi contada algumas vezes. Sobre isso, existem
alguns artigos e livros escritos. Entretanto, a história
da crítica científica e da discussão sobre os casos de
OVNIs no nosso país sequer foi esboçada. Para aqueles
que querem pensar a respeito, é imprescindível
considerar a atuação da revista mensal Ciência
Popular.
Ciência Popular
surgiu em outubro de 1948 e durou até, pelo menos, 1966.
Nela começaram a escrever futuros nomes importantes da
comunidade científica nacional, como o astrônomo Ronaldo
Rogério de Freitas Mourão, por exemplo. Dirigida por Ary
Maurell Lobo, Ciência Popular afirmava desde o
seu primeiro editorial que não seria uma “colcha de
retalhos de publicações estrangeiras”. Aqueles eram os
anos iniciais da Guerra Fria, um conflito no qual os
avanços da ciência e da tecnologia serviram de
propaganda para norte-americanos e soviéticos. Nesse
contexto, Lobo afirmava ficar com nenhum dos dois lados,
mas com os brasileiros.
Em relação aos “discos
voadores”[1], Ciência Popular sempre teve uma
postura crítica e, em alguns momentos, agressiva. Os
primeiros comentários sobre o assunto apareceram em
1949, enfatizando apenas as múltiplas possibilidades de
explicações científicas para os “discos voadores”.
Entretanto, à medida que o sensacionalismo da imprensa
nacional e os casos foram aumentando, a postura de Ary
Maurell Lobo tornou-se mais ácida. A principal briga foi
com a famosa revista O Cruzeiro e seu repórter
João Martins, co-autor das famosas fotografias tiradas
na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, em 1952. [leia
artigo aqui] Em 1955, Ary Maurell Lobo escreveu:
(...)
[os discos voadores] Marcaram primeiro encontro, na
Barra da Tijuca, com dois ladinos repórter de O
Cruzeiro, magazine que precisa vender uma tiragem de
750.000 exemplares por semana. Depois, passaram a
espionar as bases aéreas brasileiras, para avaliar com
certeza o poderio bélico da Terra da Santa Cruz, que tem
mais generais e almirantes e brigadeiros que soldados.
Ora, só e só esta última façanha dos ‘discos voadores’
deveria ser suficiente para os desmoralizar
completamente. Tais engenhos teriam de provir de um
lugar habilitado por sêres de fenomenal inteligência, e
tão somente gente muito burra ignora que nada há para
espionar por aqui, já que o Brasil não passa, quanto ao
potencial bélico, de um zero bem redondo, ou talvez mais
exatamente de um googol de zeros, resultância muito
lógica da pobreza nacional, sobretudo em matéria de
vergonha.
O tom do trecho dá uma
idéia de como as cabeças estavam quentes na época. Para
aqueles que estão muito acostumados ao jornalismo “frio”
dos nossos dias, podem parecer estranhos os adjetivos e
acusações de Lobo. Deve-se ressaltar, entretanto, que
não existia no jornalismo nacional de então a busca pela
separação entre informação e opinião. Críticas,
suposições e dados científicos muitas vezes apareciam
misturados.
Até o momento, não se
sabe muito sobre a atuação da revista e as discussões em
que ela esteve envolvida. Infelizmente, esse importante
capítulo da história da ciência e da ufologia ainda está
para ser escrito. Acompanhar a trajetória de Ciência
Popular seria uma ótima oportunidade para se
entender as relações entre ciência e sociedade naquele
momento histórico. Afinal, como a pequena comunidade
científica brasileira da década de 1950 reagiu aos
primeiros casos de discos voadores? Como aconteceram os
primeiros conflitos de opiniões? Como os aficionados
pelos discos voadores responderam às negativas dos
cientistas? Essas são perguntas importantes que apenas
as futuras pesquisas em arquivos poderão responder.
Notas:
[1] Na década de 1950, o
termo OVNI (Objeto Voador Não Identificado) raramente
era empregado. Os meios de comunicação costumavam usar o
termo “disco voador” para objetos aéreos, de qualquer
forma, que não fossem identificados. Hoje em dia, “disco
voador” é utilizado frequentemente como sinônimo de nave
extraterrestre.
|