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Uma história a ser contada

Revisado 5 fevereiro 2006

Por Rodolpho Gauthier

 

          A história da ufologia no Brasil já foi contada algumas vezes. Sobre isso, existe um pequeno número de artigos, livros e uma dissertação de mestrado [1]. Entretanto, a divulgação dos casos de OVNIs no jornalismo científico brasileiro e as discussões e opiniões dos cientistas a respeito do assunto permanecem esquecidos. Para quem quiser pensar sobre isso, é imprescindível considerar a atuação da revista mensal Ciência Popular.          

         Ciência Popular foi uma das primeiras iniciativas duradouras do jornalismo científico nacional. Surgiu em outubro de 1948 e durou até, pelo menos, 1966. Nela começaram a escrever futuros nomes importantes da comunidade científica nacional, como o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, por exemplo. Dirigida por Ary Maurell Lobo, Ciência Popular afirmava desde o seu primeiro editorial que não seria uma “colcha de retalhos de publicações estrangeiras”. Aqueles eram os anos iniciais da Guerra Fria, um conflito no qual os avanços da ciência e da tecnologia serviram de propaganda para norte-americanos e soviéticos. Nesse contexto, Lobo afirmava não ficar com nenhum dos dois lados, mas com os brasileiros.

         Em relação aos “discos voadores”[2], Ciência Popular sempre teve uma postura crítica e, em alguns momentos, agressiva. Os primeiros comentários sobre o assunto apareceram em 1949, enfatizando apenas as múltiplas possibilidades de explicações científicas para os “discos voadores”. Entretanto, à medida que o sensacionalismo de parte da imprensa nacional e o número de casos aumentaram, a postura de Ary Maurell Lobo tornou-se mais ácida. A principal briga foi com a famosa revista O Cruzeiro e seu repórter João Martins, co-autor das famosas fotografias tiradas na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, em 1952. [leia artigo aqui] Em 1955, Ary Maurell Lobo escreveu:

 (...) [os discos voadores] Marcaram primeiro encontro, na Barra da Tijuca, com dois ladinos repórter de O Cruzeiro, magazine que precisa vender uma tiragem de 750.000 exemplares por semana. Depois, passaram a espionar as bases aéreas brasileiras, para avaliar com certeza o poderio bélico da Terra da Santa Cruz, que tem mais generais e almirantes e brigadeiros que soldados. Ora, só e só esta última façanha dos ‘discos voadores’ deveria ser suficiente para os desmoralizar completamente. Tais engenhos teriam de provir de um lugar habilitado por sêres de fenomenal inteligência, e tão somente gente muito burra ignora que nada há para espionar por aqui, já que o Brasil não passa, quanto ao potencial bélico, de um zero bem redondo, ou talvez mais exatamente de um googol de zeros, resultância muito lógica da pobreza nacional, sobretudo em matéria de vergonha.

         O tom do trecho dá uma idéia de como as cabeças estavam quentes na época. Para algumas pessoas pode parecer estranho os adjetivos e acusações de Lobo. Deve-se ressaltar, entretanto, que não existia no jornalismo nacional de então a busca pela separação entre informação e opinião, como acontece atualmente em boa parte dos meios de comunicação. Naquela época, críticas, suposições e dados científicos muitas vezes apareciam misturados.

         Até o momento, não se sabe muito sobre a atuação de Ciência Popular e as discussões em que ela esteve envolvida. Infelizmente, esse importante capítulo da história do jornalismo científico e da ufologia brasileira ainda está para ser escrito. Acompanhar a trajetória de Ciência Popular seria uma ótima oportunidade para se entender as relações entre ciência e sociedade naquele momento histórico, além de poder acompanhar o desenvolvimento do jornalismo científico nacional.

           Uma pesquisa sobre a revista poderia responder a perguntas importantes, como: De que maneira, a pequena comunidade científica brasileira da década de 1950 reagiu aos primeiros casos de discos voadores? Como aconteceram os primeiros conflitos de opiniões? Como era o jornalismo científico de então? Como os aficionados pelos discos voadores responderam às negativas dos cientistas? São, sem dúvida, questões importantes, para as quais apenas as futuras pesquisas em arquivos poderão dar respostas.
 

Notas:

[1] A dissertação foi defendida por Cláudio Suenaga na Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Assis em 1998 com o título “A dialética do real e do imaginário: uma proposta de interpretação do fenômeno OVNI”

[2] Na década de 1950, o termo OVNI (Objeto Voador Não Identificado) raramente era empregado. Os meios de comunicação costumavam usar o termo “disco voador” para objetos aéreos, de qualquer forma, que não fossem identificados. Hoje em dia, “disco voador” é utilizado freqüentemente como sinônimo de nave extraterrestre.