HOME  |  ARTIGOS  |  CASOS  |  QUEM SOMOS  |  OPUS COMENTA  |  DICIONÁRIO  |  PARECE OVNI  |  LINKS  |  CONTATO

 


Homenagem a Eduardo D. Barcelos

por
Rubens de Oliveira Martins, professor das Faculdades Integradas UPIS onde lecionou com Eduardo Dorneles Barcelos


No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados
Voa com seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens do universo, todo o céu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

(Jules Laforgue. Litanias da Lua) 



Parece estranho fazer uma homenagem ao Eduardo na forma de um discurso póstumo e não de um debate com ele... e mesmo agora me sinto tentado a provocá-lo, como habitualmente fazia.

Deixem-me, porém falar um pouco sobre o amigo que conheci...

O professor querido pelos alunos e pelos colegas aqui na UPIS, sempre bem humorado, sempre pronto para fazer uma brincadeira ou um comentário engraçado sobre aquilo que os menos perspicazes consideravam como "sério".

O intelectual que não confundia seriedade com sisudez, e sabia dosar sua erudição e inteligência com este alto astral e bom humor. Não perdia a oportunidade de um comentário de "gozação" sobre as banalidades que considerava como discursos "pseudo-científicos".

O provocador que não gostava da mediocridade que muitas vezes acompanha a posse de títulos acadêmicos e não se deslumbrava com leituras "pós-modernas"  que ambicionam desconstruir o conhecimento... achava muita graça disso tudo. Como intelectual herdeiro da linhagem do melhor Iluminismo, era crítico e satírico, mas sempre com inteligência.

Todas estas lembranças tornam ainda mais absurdo pensar que o Eduardo não esteja mais conosco. Ele que havia se despedido de nós porque estava mudando para Porto Alegre e não iria mais dar aulas na faculdade.

Nós que estávamos acostumados a ouvir suas histórias da Agência Espacial Brasileira e dos lançamentos do VLS...

Ele, que havia chegado em Brasília na quinta-feira (21/8), e que no dia seguinte, sexta-feira, dia 22 de agosto, morreu em um acidente de automóvel... acidente que ocorreu praticamente na mesma hora do acidente na base de Alcântara, às vésperas de mais um lançamento do programa espacial brasileiro.

Era fã de Arquivo X e Star Trek, e foi assim que nossa amizade começou, em conversas sobre episódios destas séries e nas análises sobre sua pertinência sociológica. Foi uma amizade bastante rápida e curta, mas intensa pelos laços de afinidade, que unem mesmo os que estão distantes.

Era leitor de ficção científica (e dono de uma bela biblioteca sobre o tema) e me ensinou muito sobre os autores e histórias desta área. Apreciador de um bom vinho tinto, algumas vezes nos reunimos para agradáveis noites de conversas animadas em torno de nossos temas de sci-fi, astronomia, e tantas outras coisas.

Na faculdade começou como professor de história contemporânea, mas logo sua vocação falou mais forte e foi responsável pela retomada da disciplina de astronomia para o curso de geografia, no qual falava daquilo que o apaixonava, e com isso conquistava todas as atenções.

Em 2000 trabalhamos juntos em uma "oficina" sobre Ficção CIentífica e Sociedade na "Semana de História" patrocinada pela faculdade aqui em Brasília... brincadeiras sérias.

Em 2001 lançou seus "Telegramas para Marte" e estava muito feliz com o livro, já fazendo planos para outros projetos, já que era um entusiasta da divulgação científica, o que jamais significou minimizar o rigor científico de pesquisador.

Enfim, tudo passou muito rápido e a sensação de abandono que ficou é grande. Olhando para trás penso em tantas vezes que não pudemos nos encontrar, substituídas por telefonemas ou e-mails.

Continuaremos achando absurdo e sem sentido sua morte tão precoce, mas temos a certeza de que seu trabalho continuará a inspirar novos investigadores e manterá sua memória viva entre nós.

Você tinha que partir justamente agora, Eduardo? Quando esperávamos seus comentários sobre a aproximação excepcional de Marte? Estava com pressa de se juntar às estrelas?

Até breve professor Eduardo, até breve amigo. Por enquanto nos veremos na poeira de estrelas sobre nós...