“OS MARCIANOS ESTÃO
CHEGANDO!”:
AS DIVERTIDAS E IMPRUDENTES REINVENÇÕES DE UM ATAQUE
ALIENÍGENA NO CINEMA E NO RÁDIO.
Por Alexandre Busko Valim
(leia sobre o autor na coluna à
direita)
Artigo publicado originalmente na
revista
Diálogos (Vol.10, n.1 – 2006) da UEM
(Universidade Estadual de Maringá). Texto disponível
em formato PDF
aqui. Publicado neste site com a gentil
autorização do autor e do editor da revista.
Resumo: Por muitos anos, o
Planeta Terra sofreu diversas invasões marcianas. Tais
ataques, por vezes devastadores e aterrorizantes,
ocorreram nos livros, filmes, revistas, histórias em
quadrinhos, jogos eletrônicos e no rádio. Todavia,
muitas das invasões marcianas representadas ao redor
do mundo guardam entre si uma estreita ligação: foram
inspirados em A Guerra dos Mundos, escrito por
H.G. Wells e publicado na Inglaterra em 1898. Com base
em algumas representações encenadas em Portugal e no
Brasil, pretendemos discutir as origens e
transcodificações de uma obra de ficção e
problematizar como, através do imaginário popular,
podemos identificar a reelaboração e associação de
idéias ligadas a diferentes contextos do século XX.
Palavras chave: imaginário popular; invasão
alienígena; cinema; rádio.
“THE
MARTIANS ARE COMING!”: THE COMICAL AND IMPRUDENTS
REINVENTIONS OF AN ALIEN ATTACK IN THE CINEMA AND THE
RADIO.
Abstract: For many years, the Earth suffered diverse
Martian invasions. Such attacks, for times devastating
and terrific, had occurred in electronic books,
movies, magazines, comics, games and in the radio.
However, many of the represented Martian invasions
around of the world keep between itself a narrow
linking: they had been inspired in The War of the
Worlds, written by H.G. Wells and published in
England in 1898. On the basis of some representations
exhibited in Portugal and Brazil, we intend to argue
the origins and the transcodings of a fiction
workmanship and to inquirer how we can identify the
rework and association of ideas on the different
contexts of XX century through the popular imaginary.
Keywords: popular imaginary; alien
invasion; cinema; radio.
O filme A Guerra dos Mundos,
produzido em 2005, dirigido por Steven
Spielberg (1946 -) e estrelado por Tom Cruise (1962
-), encena uma devastadora e aterrorizante invasão
marciana. O ataque alienígena, no entanto, foi apenas
mais um das várias invasões sofridas pelo planeta
Terra através de livros, filmes, revistas, histórias
em quadrinhos, jogos eletrônicos e rádio.
Muitas das várias invasões marcianas representadas ao
redor do mundo guardam entre si uma estreita ligação.
Qual poderia ser a relação, por exemplo, entre um
filme dirigido por Spielberg, um escritor inglês, um
famoso ator norte-americano, e as cidades de Lisboa –
Portugal, Caratinga - MG e São Luis - MA?
Um
dos livros mais famosos do escritor inglês Herbert
George Wells (1866-1946) foi A Guerra dos Mundos,
publicado na Inglaterra em 1898. Nesse livro,
considerado um marco da ficção científica, os
marcianos, após esgotarem os recursos naturais de seu
planeta, invadem a Terra e iniciam o extermínio da
raça humana. A destruição tem início na pequena cidade
inglesa de Woking. Logo, Londres é destruída e,
a seguir, todo o planeta.
Na
obra de H.G. Wells os extraterrestres utilizavam
terríveis raios térmicos que desintegravam as pessoas
instantaneamente. Os invasores, que se locomoviam
através de impressionantes naves espaciais, construíam
milhares de apavorantes torres de guerra e eram
aparentemente indestrutíveis, são derrotados ao final
do conto por microorganismos terrestres inofensivos
aos seres humanos (WELLS, 1953; ENDLER, 1998: 25).
A
invasão dos marcianos e a sua falta de anticorpos,
estava relacionada a um questionamento da civilização
e do imperialismo inglês que na época exercia uma
grande influência sobre o mundo. A cruel dominação dos
invasores que se alimentavam de sangue humano, matavam
sem necessidade e transformavam tudo ao seu alcance em
cinzas, é uma outra comparação feita pelo autor com a
destruição da natureza e com os genocídios praticados
por países colonialistas como a Inglaterra.
No
final do século XIX, a Inglaterra era o centro do
maior império colonial do mundo. Em Londres, o
colonialismo era considerado por muitos como um ato
patriótico benéfico não apenas para a Inglaterra, mas
também para os povos colonizados, pois tornava
possível o progresso, a civilização, o cristianismo e
a ordem britânica. H.G. Wells não compartilhava dessa
visão, por isso, em A Guerra dos Mundos, os
marcianos são tão destruidores e bem mais evoluídos do
que a raça humana. Em sua obra, onde a técnica e a
estratégia humana falharam na luta contra os
invasores, venceram os seres cuja existência passava
despercebida. A ficção também apresentou a prepotência
do exército vencedor e a aniquilação dos valores e da
cultura dos conquistados vistos pela ótica da
sociedade conquistada.
Para
o colunista William L. Alden, em uma das várias
resenhas do livro publicadas pelo New York Times
em 1898, a invasão imaginada por Wells além de
terrivelmente impressionante, era também bastante
provável. O colunista disse ainda, que seu único
receio era de que um dia os marcianos atendessem às
sugestões do livro e pusessem em prática a invasão
aventada por H.G. Wells (ALDEN, 15/01/1898).
Quase 40 anos depois, em 30 de outubro de 1938,
véspera da celebração do dia das bruxas nos Estados
Unidos, a invasão, de certa forma, finalmente ocorreu.
Com base no livro do mencionado escritor inglês, o
jovem ator norte-americano Orson Welles (1915-1985)
fez um programa de rádio simulando a invasão
extraterrestre. O programa causou pânico em boa parte
do país ao fazer muitos acreditarem que os marcianos
haviam aterrissado a bordo de cilindros metálicos e
invadido a Terra.
Logo
no início da transmissão, o ouvinte foi levado a
esquecer que estava ouvindo uma obra de ficção, pois o
programa foi repetidamente interrompido por diversos
boletins de notícias. As falsas chamadas
extraordinárias que supostamente cobriam os
acontecimentos foram divulgados com freqüência cada
vez mais intensa:
Locutor: Senhoras e
senhores, este é o último boletim da Intercontinental
Radio News, em Toronto, Canadá. O professor Morse, da
Universidade Macmillam, informa ter observado um total
de três explosões no planeta Marte entre 19:45h e
21:20h, horário do leste. Isto confirma as informações
anteriormente recebidas de observatórios americanos.
Agora, de perto de nosso lar, Trenton, Nova Jersey,
chega um boletim (...) (ZAREMBA, BENTES, 1996: 145).
A
transmissão continuou interrompendo a programação
"normal" de forma crescente até que o repórter
fictício Carl Phillips passou a transmitir em tempo
integral de Grover's Mill, onde supostamente
haveria sido encontrado um enorme meteoro que logo
depois se descobriu ser um cilindro de metal:
Repórter Carl
Phillips: (som alto e incompreensível ao fundo)
Senhoras e senhores, aqui é Carl Philips novamente,
agora na fazenda Wilmuth, em Grover’s Mill, Nova
Jersey. O professor Pierson e eu fizemos as onze
milhas de Princeton em dez minutos. Bem, eu não sei
por onde começar. Diante de meus olhos. Bem, eu acabei
de chegar. Ainda não tive a chance de olhar em volta.
Eu acho que é isto. Sim, eu acho que esta é a “coisa”,
exatamente na minha frente, semi-enterrada num grande
buraco. Deve ter se chocado com uma enorme força. O
solo está coberto de pedaços de árvores que o objeto
deve ter derrubado na descida. O que eu posso dizer é
que o objeto em si não parece muito com o meteoro.
Pelo menos não com os meteoros que eu já vi. Parece-se
mais com um imenso cilindro (...)(ZAREMBA, BENTES,
Op cit: 146).
A
tensão foi construída cuidadosamente utilizando-se de
entrevistas com autoridades e a dramática descrição de
um monstro a sair do cilindro:
Repórter Carl
Phillips: Senhoras e senhores é indescritível. Mal
posso me forçar a continuar olhando. É tão horrível.
Os olhos são pretos e brilham. Têm a forma de uma
abelha. A saliva pingando de seus lábios que parecem
tremer e pulsar. Este monstro, ou o que quer que seja,
mal pode se mexer. Está sendo puxado para baixo por
possivelmente a gravidade ou algo assim. A coisa está
se levantando agora e os espectadores caem para trás (ZAREMBA,
BENTES, Op cit: 151).
Conforme o noticiado, o primeiro confronto haveria
terminado com 40 mortos. No segundo ataque, sete mil
homens do exército, armados com rifles e
metralhadoras, haveriam sido desintegrados com os
raios térmicos. Durante o programa, além de haver
informado a descoberta de novos cilindros, Orson
Welles continuou a transmitir mais “notícias” de
destruição, de mortes, e da ajuda que haveria sido
oferecida por Inglaterra, França e Alemanha.
Ao
final da transmissão, o locutor finalmente revela que
o programa tratava-se de uma ficção:
Aqui fala Orson
Welles, senhoras e senhores, sem máscara, para
assegurá-los de que A Guerra dos Mundos não tem
maior significado que uma distração de feriado que
tinha a intenção de ser: A versão para rádio própria
do Mercury Theater de vestir-se com lençóis e pular de
um arbusto dizendo “Boo”. Começando agora nós não
poderíamos ensaboar todas as suas janelas e roubar
todos os portões dos jardins até amanhã à noite, então
fizemos a segunda melhor coisa: Nós aniquilamos o
mundo diante de seus próprios ouvidos e finalmente
destruímos a CBS. Vocês terão um alívio, eu espero, ao
saber que nós não tínhamos a intenção, e que ambas
instituições estão abertas para os negócios. Então,
adeus a todos e lembrem-se, por favor, da terrível
lição que aprenderam hoje à noite: aquele sorridente,
luminoso, invasor do globo de sua sala de estar é um
habitante do campo de abóboras e se sua campainha soar
e ninguém estiver lá, não era um marciano. É Halloween
(ZAREMBA, BENTES, Op cit: 155).
Entretanto, apesar do esclarecimento, a interpretação
sonora do extermínio da raça humana pelos monstros
extraterrestres durante a transmissão de uma hora fez
milhares de norte-americanos rezarem, chorarem e
fugirem apavorados. enquanto muitos se despediram dos
parentes e preveniram os vizinhos do perigo que se
aproximava, outros ligaram insistentemente pedindo
ambulâncias aos hospitais e viaturas policiais (NEW
YORK TIMES - NYT, 31/10/1938; NEBRASKA STATE JOURNAL,
31/10/1938).
A
rede de rádio Columbia Broadcasting System (CBS),
calculou à época que das seis milhões de pessoas que
ouviram o programa, pelo menos 1,2 milhão tomaram a
dramatização como fato verídico, ao acreditarem que
haviam de fato acompanhado uma reportagem
extraordinária. Calculou-se ainda que dentre os
ouvintes, meio milhão tiveram a certeza de que o
perigo era iminente e, ao entraram em pânico, agiram
de forma a confirmar os fatos que haviam sido narrados
ocasionando sobrecarga de linhas telefônicas,
aglomerações nas ruas, congestionamentos etc.[1]
Embora o programa tenha repercutido em todo o país e
até mesmo no Canadá, o pânico (como por exemplo, fuga
em massa e reações desesperadas de moradores) ocorreu
principalmente em localidades próximas a New York
e New Jersey, de onde a CBS transmitiu o
programa e Orson Welles situou sua história.
Além
disso, os ouvintes, aparentemente, não deram atenção
ou não ouviram a introdução do programa: The
Columbia Broadcasting System and its affiliated
stations present Orson Welles and the Mercury Theatre
on the Air in `The War of the Worlds' by H. G. Wells
(NYT, 31/10/1938).
Não bastasse o alerta
haver passado despercebido, os ouvintes, dentre os
quais alguns que chegaram a “ouvir” as explosões e até
mesmo a “ver” a invasão, também não associaram o
programa à chamada veiculada horas antes da
transmissão: Today: 8:00-9:00--Play: H. G. Wells's
`War of the Worlds'—WABC (NYT, Op cit.).
Os marcianos invadem os
meios de comunicação
O
livro escrito há mais de 100 anos inspirou, em 1938, o
programa que se tornou o caso mais célebre de histeria
coletiva da História. Devido à popularidade de tais
representações e ao impacto causado pela invasão
anunciada pelo rádio, posteriormente, outros
radialistas tentaram reproduzir a façanha de Orson
Welles.
O
programa foi repetidamente imitado em todo o mundo,
como em 12 de novembro de 1944 quando uma transmissão
em Santiago, no Chile, que incluiu um ator
interpretando o Ministro do Interior, mobilizou até
mesmo o Exército (NYT, 14/11/1944; MUSEUM OF HOAXES,
2004). Cinco anos depois, em 12 de fevereiro de 1949,
uma transmissão da Radio Quito, no Equador, com atores
a interpretar políticos locais, jornalistas e
testemunhas, levou a população às ruas (UCEDA, 2002;
FORTUNATO, 2003; MOORE, 2003). A violência dos
protestos contra a transmissão mobilizou as Forças
Armadas que, diante do tumulto, utilizaram gás
lacrimejante e até mesmo tanques blindados. Os
prejuízos causados pelos protestos foram calculados em
cerca de U$ 350.000, uma vultosa soma para a época. Em
virtude dos prejuízos materiais e do impacto social
causado pela transmissão, o Governo confiou ao
Ministro da Defesa as investigações para avaliar os
danos e responsabilizar os culpados (NEW YORK TIMES,
14/02/1949). Os confrontos com a polícia e o incêndio
do edifício onde estava instalada a estação de rádio
resultaram em dezenas de feridos, na prisão de 18
suspeitos e na morte de 20 pessoas (MANAS, 1949: 10;
NYT, 15/02/1949; NYT, 16/02/1949).
O
fascínio por um contato direto com os marcianos e a
possibilidade de lucro ante a elaboração de um produto
bastante popular, motivou, nos EUA, outras adaptações
para o rádio no formato novelístico, dentre as quais:
Dimension X (1950-1951); X Minus 1
(1955-1956); Escape (1947-1954); Journey
Into Space (1953-1954) e Tales Of Tomorrow
(1951 e 1953).
As
condições sociais e econômicas surgidas em decorrência
da popularidade de tais estórias também motivou a
produção de várias adaptações para a televisão e para
o cinema, entre elas: The War Of The Worlds
(1953); The Night America Trembled (1957);
War Of The Worlds TV Series (1975); War Of The
Worlds: The Series (1988); Spaced Invaders
(1990); The War Of The Worlds (Dream Works,
2005); The War Of The Worlds (Pendragon, 2005);
The War Of The Worlds (Asylum, 2005); H G
Wells and The War Of The Worlds (Delta, 2005) e
The Radio Mechanics (2005) (THE WAR OF THE WORLDS,
2005).
Os
livros, as histórias em quadrinhos e especialmente os
filmes não apenas sobre A Guerra dos Mundos,
mas sobre a ficção científica de forma geral,
ampliaram a sedução de um imaginário repleto de
fantasias que foi alimentado, sobretudo, pelo
desenvolvimento científico, pela busca de civilizações
extraterrenas e, após a II Guerra Mundial, pelo
alvorecer da Guerra Fria (MUNHOZ, 2004: 261-281). Ciro
Flamarion Cardoso, em um livro bastante instrutivo
sobre o tema, afirma que muitas das narrativas da
época refletiam não apenas o militarismo derivado da
vitória na II Guerra Mundial e da participação dos
Estados Unidos na Guerra da Coréia, mas também a
paranóia anticomunista (2004 [a]: 33; CAUSO, 2003).
Segundo o autor, apesar de os principais ingredientes
temáticos e de linguagem para o cinema de ficção
científica propriamente dito já estarem reunidos,
faltava algum catalisador que realizasse a junção
deles, permitindo a constituição de um gênero
cinematográfico plenamente caracterizado. Os elementos
responsáveis pela junção foram duas paranóias típicas
do período: o medo de uma possível invasão soviética e
da bomba atômica em mãos comunistas, e a primeira fase
das pretensas observações de discos voadores, iniciada
em 1947, em conjunto com supostas ocultações de
eventos dessa natureza pela Força Aérea dos Estados
Unidos.
Embora a linha narrativa dos filmes de ficção
científica dessa fase contenha elementos próximos à
dos filmes de horror, de acordo com Cardoso, tais
filmes não eram propriamente pessimistas; pois
monstros e invasores, na maioria dos casos, acabavam
sendo vencidos pelos militares ou pela iniciativa de
heróis - eventualmente cientistas marcados por forte
individualismo (Op. cit.: 41-42; CARDOSO, 2004
[b]: 129-151).
De
todo modo, tais produtos ajudaram a estabelecer um
padrão visual não apenas do que seria um
extraterrestre ou um disco voador, mas também de como
se daria uma possível invasão.
Nesse sentido, o papel desempenhado pela produção
cinematográfica dirigida por Byron Haskin (1899-1984),
em 1953, foi fundamental para a constituição das
representações alienígenas elaboradas posteriormente.
O sucesso de bilheteria alcançado por A Guerra dos
Mundos (1953) deve-se aos bons efeitos especiais
utilizados e por ter sido um dos primeiros filmes de
ficção científica em colorido. Repleto de efeitos
especiais, o filme também mesclou ficção, realidade e
noções sobre ciência. No início do filme, enquanto ao
expectador é mostrado o sistema solar, um narrador em
off descreve a existência de inteligências
superiores e hostis no planeta Marte:
Ninguém acreditaria
que no meio do século XX, os afazeres humanos estavam
sendo atentamente observados por uma inteligência
superior à do Homem. Porém, através do espaço sem fim,
no planeta Marte, inteligências grandes, frias e
inamistosas, olhavam nossa Terra com olhos invejosos,
lenta e seguramente fazendo seus planos contra nós.
Marte está a mais de 228 milhões de quilômetros de
distância do Sol, e durante séculos tem estado nos
últimos estágios de extinção. À noite, a temperatura
desce muito abaixo de zero, até em seu Equador. Os
habitantes desse planeta agonizante olharam através do
espaço com seus instrumentos e inteligências com as
quais mal sonhamos, procurando por outro mundo para o
qual pudessem emigrar (A GUERRA DOS MUNDOS, 1953: 1m
32s).
Além da narração inicial, o filme apresenta mais
duas, aos 51min 30s, e aos 1h 23min 38s. As narrações
explicam a origem e motivos da invasão marciana, suas
estratégias e o impacto dessa invasão sobre planeta
Terra:
Os
marcianos tinham calculado sua descida em nossa Terra
com impressionante perfeição e sutileza. Quanto mais
seus cilindros vinham das profundezas misteriosas do
espaço, suas máquinas de guerra, estranhas em sua
força e complexidade, criaram uma onda de medo que se
espalhou por todos os cantos do mundo. Em todos os
países, os governos oficiais se reuniram em conclaves
desesperados, procurando meios para coordenar suas
defesas com outras nações (A GUERRA DOS MUNDOS, 1953:
51m 30s).
E,
por fim, a sua derrota:
Os marcianos não
tinham resistência às bactérias de nossa atmosfera, as
quais há muito tempo somos imunes. Uma vez que
respiraram o nosso ar, os germes que não mais nos
afetam começaram a matá-los. O fim veio rapidamente.
Em todo o mundo, suas máquinas começaram a parar e
cair. Depois do que tudo que os homens podiam fazer
falhou, os marcianos foram destruídos e a humanidade
salva, pela menor coisa que Deus, em sua sabedoria,
colocou na Terra (A GUERRA DOS MUNDOS, 1953: 1h 23m
38s).[2]
Ao
longo do século XX, as representações de A Guerra
dos Mundos que obtiveram algum impacto entre os
ouvintes, narraram a invasão marciana utilizando
locais e assuntos familiares aos expectadores, motivo
pelo qual o filme também se tornou sucesso de
bilheteria nos EUA. A seguir esse raciocínio, a
utilização de imagens de arquivo (como a do avião
Fly Wing Northrop YB-49 (1h 58s), e o
emprego da bomba atômica para combater os marcianos
(1h 5min 4s), também contribuíram para a ampla
aceitação da produção. Quando o Major General Mann (Les
Tremayne (1913-2003) se encontra pela primeira vez com
o Dr. Forrester (Gene Barry (1921 -), ele se refere a
um encontro anterior em Oak Ridge (27m 50s). A
referência a Oak Ridge, Tennessee, é outra
propositada menção à tecnologia nuclear. Naquele local
encontrava-se uma das instalações industriais do vasto
complexo Manhattan Project, elaborado no
contexto da II Guerra Mundial. As instalações
construídas naquela localidade a partir de 1942
estavam voltadas, principalmente, para o
enriquecimento e purificação de urânio (FEHNER, 1998;
HUGHES, 2004: 455; OAK RIDGE NATIONAL LABORATORY,
2005).
Aliás, vale sempre a pena lembrar que, como toda obra
cinematográfica, The War of the Worlds está
intimamente ligado ao seu contexto de produção, nesse
caso, um dos momentos cruciais da Guerra Fria.
Certamente, uma das principais referências àquele
momento está em uma omissão, qual seja, aos 53min 33s
o narrador off descreve o devastador ataque
marciano em vários países e a bravura de seus
exércitos em combatê-los, mas a União Soviética e o
Exército Vermelho são convenientemente omitidos.
A
utilização de temas comuns aos expectadores, como
dissemos, é um elemento importante para o êxito nas
bilheterias. Mais uma vez, o clima de incertezas e
desconfiança da Guerra Fria aflora quando três
cidadãos da pequena Grover´s Mill se deparam
com um marciano. Em uma espirituosa menção ao programa
de Orson Welles um deles diz: como acham que
vieram? Ao que o companheiro responde: De algum
lugar, Marte está bem perto! E então o terceiro
homem replica: Dizem que aconteceu há uns 18, 20
anos, de Marte! (15m 27s). Entrementes, uma outra
possível referência à URSS aparece no momento em que
eles se aproximam da nave alienígena: diante dos
invasores vindos do “Planeta Vermelho”, um deles
exclama: Talvez não sejam humanos como nós, e obtém
a resposta de um de seus colegas: Todos os humanos têm
que parecer como nós? (THE WAR OF THE WORLDS,
1953: 15min 51s).
Contudo, a popularidade do filme deve-se ainda a outro
fator digno de nota. Em 1946, a The Radio
Corporation of America (RCA) introduziu no mercado
norte-americano um popular aparelho de televisão, o
modelo Preto e Branco 630TS. Quatro anos
depois, em 1950, a companhia propôs à Federal
Communications Commission (FCC) um sistema de
cores eletrônico que não impedia a recepção por
televisores Preto e Branco. Todavia, a FCC optou por
um sistema de cores parcialmente mecânico chamado "whirling
disc" proposto pela concorrente Columbia
Broadcasting System (CBS), e que não era
compatível com alguns receptores existentes, como, por
exemplo, o modelo 630TS da RCA (NYT,
26/06/1953). O Presidente da RCA, David Sarnoff
(1891-1971), temendo um enorme prejuízo financeiro
para sua companhia, utilizou sua influência política
para forçar o National Television Standards
Committee (NTSC) a se reunir, e ao mesmo tempo
pressionou os engenheiros da RCA a melhorarem todos os
sistemas eletrônicos da RCA (CED VIDEODISC, 2003). Em
novembro de 1953, a FCC anunciou, finalmente, a
aprovação do padrão proposto por Sarnoff (NYT,
04/11/1953). A disputa entre as companhias pela
especificação da NTSC (NYT, 09/02/1952) e o inovador
conceito red-green-blue (RGB) presente no
primeiro televisor colorido produzido nos EUA, o CT-100
Color Television da RCA, lançado em abril de 1954,
foram amplamente divulgados pelos meios de
comunicação.
Os
produtores de A Guerra dos Mundos (1953)
aproveitaram a publicidade dada ao moderno sistema
colorido da RCA, incorporando ao roteiro a tecnologia
RGB. No filme, os marcianos utilizavam um dispositivo
remoto com uma câmera para exploração terrestre, em
cuja extremidade havia uma espécie de câmera
nitidamente baseada no conceito red-green-blue
(47m 59s). Além disso, os alienígenas tinham três
olhos: um vermelho, um verde e um azul (51m 30s).
The War
of The Worlds
(1953) é fruto da criação do produtor George Pal
(1908-1980), que realizou filmes memoráveis como
Destination Moon (1950), When Worlds Collide
(1951), The Time Machine (1960) e The Seven
Faces of Dr. Lao (1964) (KATZ, 1057-1058).
Apesar de o
especialista em efeitos especiais Gordon Jennings ((?)
-1953) inicialmente tentar criar as máquinas marcianas
em sua forma trípode, como no livro de Herbert George
Wells, George Pal achou que o efeito obtido seria
muito caro e dificilmente pareceria realista na tela.
Decidiu, então, que os marcianos tripulariam veículos
flutuantes, que seriam manipulados e suspensos pelos
técnicos por arames finos (INTERNET MOVIE DATABASE
[b], 2005).
Os
raios de energia das naves marcianas foram obtidos com
o uso de tochas de acetileno aplicadas em metal,
posteriormente adicionados às naves alienígenas por
efeitos óticos. As cenas de destruição em massa à
época não tinham paralelo, e foram obtidas através da
combinação de efeitos óticos, pinturas de fundo e
miniaturas (SALDANHA, 2005). O filme custou U$ 2
milhões, dentre os quais, U$ 1,4 milhão foram gastos
somente em efeitos especiais. Em 1954, a produção
ganhou o Oscar de Efeitos Especiais (Gordon Jennings),
e foi indicada para os Oscars de Melhor Som (Loren L.
Ryder (1900-1985) - Paramount Sound Department),
e Melhor Edição (Everett Douglas (1902-1967)) (IMDB
[a], 2005). Em virtude, principalmente, de elementos
característicos do meio cinematográfico, o filme não
provocou o pânico da transmissão radiofônica de Orson
Welles.
Apesar da ampla divulgação dada ao programa de Welles,
a despeito dos vários livros, revistas e histórias em
quadrinhos publicados sobre o tema, do filme baseado
no livro e exibido em 1953, o programa continuou a ser
representado e a gerar pânico nas décadas seguintes.
Em 25 de junho de 1958, a transmissão foi representada
em Lisboa, Portugal, quando ocasionou pânico entre a
população. Depois de ler um artigo sobre o programa de
Welles, o locutor decidiu fazer uma transmissão
idêntica em Portugal chamada por ele de A Invasão
dos Marcianos, com a utilização de nomes
portugueses e o anúncio da invasão em vários lugares
do país. Segundo os jornais da época, milhares de
pessoas ficaram aterrorizadas ao acreditar que os
lusitanos estivessem próximos de seu extermínio.
Transmitido pela emissora católica portuguesa Rádio
Renascença, o programa levou 11 meses para ser feito e
contou com uma elaborada produção da qual participaram
cerca de vinte pessoas (MAIA, 2004). Alguns efeitos
sonoros foram criados no próprio estúdio da emissora e
outros foram cedidos pela Paramount, extraídos do
filme “A Guerra dos Mundos”, de 1953, que havia sido
exibido em Portugal (DIARIO POPULAR, 26/06/1958).
Às 19h:45min, quando a emissora transmitia
habitualmente um de seus programas, o locutor
interrompeu a programação com um breve anúncio: “amáveis
radiouvintes, vamos agora transmitir uma adaptação
radiofônica do famoso romance “A Guerra dos Mundos”,
do não menos famoso romancista inglês Herbert George
Wells. Pedimos calma, atenção, compreensão...” (DIARIO
DE LISBOA, 26/06/1958).
Logo
em seguida, foi “retransmitida” uma notícia especial
vinda da agência International Press: de que um
cientista, o Dr. Jorge da Fonseca, do
Observatório Meteorológico de Braga, havia
observado várias explosões de gás incandescente
ocorridos com intervalos regulares no planeta Marte. O
locutor informou que o fenômeno havia sido confirmado
por outro cientista, o Professor Doutor Manuel
Franco, do Observatório Astronômico de Cascais,
que descreveu as explosões de gás como “jactos de
chama azul disparados por uma arma” (DIARIO POPULAR,
26/06/1958). A “reportagem diretamente transmitida do
local de operações”, detalhava para os ouvintes o
aspecto de engenhos infernais, enquanto “ouvia-se o
ranger e o tinir terrível dos metais, o estampido das
deflagrações” (DIARIO DE LISBOA, 26/06/1958).
O
programa chegou a ser considerado à época como “um dos
mais extraordinários fenômenos de sugestão colectiva
jamais ocorridos” em Portugal, e “que não só alvoroçou
a população da capital, dos arredores e de muitas
terras da Província, como, em alguns lares, quase
chegou a provocar o pânico”. O sucesso do programa em
ludibriar os seus ouvintes foi atribuído ao realismo e
verossimilhança com que o locutor narrou a invasão,
motivo pelo qual, os três avisos durante o programa de
que tratava-se de pura ficção, não evitaram que a
“apocalíptica reportagem” convencesse muitos lusitanos
“com o seu ritmo alucinante e seus episódios de
horror” (DIARIO POPULAR, Op cit; A VOZ,
27/06/1958).
Quando na seqüência do programa, um dos locutores
anunciou que, na Quinta das Conchas, em Carcavelos,
caíra um cilindro metálico tripulado por marcianos e,
depois, se comunicou a morte de centenas de pessoas,
causado por um misterioso “raio de calor”, proveniente
da máquina marciana, a inquietação do público atingiu
o seu auge. Centenas de telefonemas de pessoas
aterrorizadas começaram a ser recebidos na Rádio
Renascença, nas redações dos jornais, na Polícia e nos
Corpos de Bombeiros. Os inúmeros protestos de ouvintes
registrados pela estação iam desde os que indagavam
sobre a autenticidade do programa[3], sobre o
agravo de saúde de pessoas doentes[4]e até
mesmo de revide à “afronta” cometida pela emissora.[5]
A
ansiedade do publico atingiu tal intensidade que a
Polícia, já sobrecarregada com telefonemas e pedidos
de informações, ordenou a imediata suspensão da
transmissão. Desse modo, às 21h45min, precisamente
quando se travava uma acesa “batalha” em Vila Nova de
Gaia, o programa que deveria prolongar-se até às
22h15min foi encerrado com um novo esclarecimento de
que se tratava da simples adaptação de uma obra de
ficção científica.
A
confusão teve maiores proporções, no entanto, nas
proximidades do local onde os marcianos estariam
aterrissando. Em Carcavelos, em Oeiras e nas suas
redondezas houve dezenas de chamadas de socorros para
a Cruz Vermelha e para os bombeiros, que chegaram a
comparecer no local da “invasão”. Também em Lisboa,
muitas pessoas foram para as ruas aterrorizadas,
enquanto outros procuravam desesperadamente por
médicos e farmácias.
Para
acalmar os ouvintes, a Rádio Renascença passou a
fazer, de 10 em 10 minutos, avisos de que se tratava
apenas de uma história imaginária, sem qualquer fundo
de verdade (A VOZ, Op cit; O PRIMEIRO DE
JANEIRO, 27/06/1958). No entanto, isso não interrompeu
a torrente de telefonemas, que se estenderam até às 3h
da madrugada, cinco horas após a suspensão da
transmissão.
Não
fosse a desordem e o descontentamento da população, o
programa lusitano seria lembrado por uma divertida
peculiaridade: com os ânimos tão exaltados, boa parte
dos ouvintes sequer percebeu que em Portugal não havia
Ministério das Relações do Interior, tampouco
observatórios em Braga e Cascais. Também não passaria
despercebido que o programa simulou a invasão marciana
no futuro, com a diferença de 1 hora. (DIARIO DE
LISBOA, 26/07/1958).
A
“brincadeira radiofônica de graves efeitos” feita pela
emissora católica foi tida como “uma insensatez sem
parelhas” que resultou em uma “idéia diabólica”
(JORNAL DE NOTICIAS, 26/07/1958). Apesar de o programa
haver passado pelo crivo da censura da Estação e,
posteriormente, do Governo, o idealizador do programa
chegou a ser interrogado e preso por algumas horas
pela temida Polícia Internacional e de Defesa do
Estado (PIDE). Em uma entrevista, disse, no
entanto, que ao sair da PIDE, um Inspetor teria dado
umas “palmadinhas” em suas costas e dito: "Por
agora tudo bem. Mas não se meta nessas coisas. Um dia
faz qualquer coisa sobre a Lua, volta para cá e, se
calhar, não sai" (MAIA, 2004). Todavia, apesar dos
transtornos causados em 1958, uma outra invasão
marciana foi representada em Portugal.
Com
o título de A Guerra dos Marcianos em 30 de
outubro de 1988 a Rádio Braga, também em Portugal,
provocou uma enorme confusão com a reação desesperada
de parte da população e mobilização das autoridades
locais (VOLAND, 1988; TIME MAGAZINE, 1988), porém, em
menor proporção do que àquela causada pela Rádio
Renascença décadas antes. O menor impacto,
possivelmente, estava ligado à condição da estação,
que era pirata. Ademais, a Radio Braga não teria
conseguido a concessão legal para o seu funcionamento
naquele ano, o que é perfeitamente compreensível (A
RADIO EM PORTUGAL, 2004).
As nossas invasões
marcianas
As
representações de invasões marcianas também fizeram
sucesso no Brasil. Dentre as experiências que
resultaram em confusões e temor entre a população, as
mais curiosas são a de Caratinga - MG, e a de São Luis
- MA.
Em
22 de novembro de 1954, um radiotelegrafista de
Caratinga-MG transmitiu durante quase uma hora a
mensagem informando que um disco voador havia
aterrissado na cidade. De forma insistente, pedia para
que enviassem “forças urgentes” ante a situação de
pânico em que a cidade estaria em decorrência de uma
invasão marciana.
A
transmissão, que detalhou os marcianos, seus
armamentos, suas naves e uma aterrorizante invasão foi
captada inicialmente em Belo Horizonte. Ao tomar
conhecimento da impressionante transmissão, quatro
jornais de Belo Horizonte teriam enviado seus
repórteres a Caratinga em aviões monomotores alugados
(SANTAYANA, 2005). Logo após ser recebida na capital
mineira, a notícia foi retransmitida para o Rio de
Janeiro, onde fez muitos ouvintes acreditarem que
Caratinga fora mesmo invadida. Em Belo Horizonte, os
telefones das redações de alguns jornais não cessavam
de tocar, e no Rio de Janeiro a transmissão gerou
confusão no Ministério da Aeronáutica. De acordo com
jornais da época, um Brigadeiro que pedalava no Leblon
guardou a sua bicicleta às pressas, e retornou a sua
base ministerial a fim de mobilizar as forças pedidas
pelo até então desconhecido radiotelegrafista de
Caratinga.
Imediatamente, sob o comando de um Coronel, um grupo
de oficiais da Aeronáutica levantou vôo no C-47
20-53 da FAB, rumo à cidade mineira, com
fotógrafos e vários apetrechos, enquanto outros
aparelhos teriam ficado de prontidão na pista de
decolagem, com os motores funcionando, aguardando
somente a ordem de partir.
Quando a imprensa carioca já estava se mobilizando
para documentar o grande acontecimento do século,
enviando seus repórteres ao Ministério da Aeronáutica
para cobrir as aterrissagens dos marcianos em
Caratinga, o boato já havia sido desmentido com outra
mensagem radiotelegráfica vindo da cidade mineira:
“Aqui não desceu disco nenhum, cidade na mais perfeita
calma” (JORNAL ULTIMA HORA, 1954: 6).
Pouco depois, o avião enviado pela FAB retornou de
Caratinga também com o desmentido. A cidade voltou,
enfim, à sua habitual tranqüilidade. Foi esta mesma
tranqüilidade que deixou o radiotelegrafista entediado
com a cidadezinha pouco movimentada, levando-o a
inventar a história da invasão extraterrestre para
“quebrar a pasmaceira”. O trote não passou segundo os
jornais, “de mais uma brincadeira de mau gosto no
estilo de um certo Sr. Orson Welles”. Obviamente,
muitas pessoas não gostaram da brincadeira, dentre
elas o Diretor regional do Departamento dos Correios e
Telégrafos (DCT) em Minas Gerais, que mandou abrir
inquérito para apurar devidamente o fato causado pela
atitude de um radiotelegráfico que considerava
Caratinga demasiada monótona. Ao divulgar suas
desculpas - com a foto do rapaz aturdido e cabisbaixo
– um jornal da época teria dito: ''era um moço triste,
e ficou mais triste ainda'' (SANTAYANA, Op.cit).
Comparada a outro programa produzido quase 20 anos
mais tarde, a transmissão feita em Caratinga-MG, não
causou tanta confusão.
Durante a Ditadura Militar, em 30 de outubro de 1971,
no aniversário da Rádio Difusora de São Luis-MA, os
diretores da estação produziram um programa em que
anunciaram que o mundo estava sendo atacado por
ameaçadores extraterrestres (O IMPARCIAL, 1971). Em
plena Guerra Fria, a invasão imaginada pelos diretores
tornava a URSS e os EUA, antigos inimigos ideológicos,
aliados em uma luta atômica contra os marcianos.
Com
o propósito de impulsionar seus negócios, os diretores
da Rádio Difusora planejaram fazer um programa de
grande repercussão que pudesse aumentar a audiência da
emissora e atrair mais anunciantes. Para dar
credibilidade à invasão marciana, que foi transmitida
através do programa líder de audiência “Paradão do
Rayol”, o idealizador do roteiro e coordenador da
transmissão utilizou locais próximos à São Luis como
Cururupu, município do litoral maranhense.
No
início daquela manhã, antes do programa da invasão ser
transmitido, um radialista informou que um
intelectual, em um furo de reportagem, entrevistaria
um astrônomo do Observatório Nacional. De acordo com o
radialista, o dito cientista estava no Maranhão para
investigar vestígios de uma nave que teria aterrissado
nas proximidades da capital, onde existia, e de fato
existe, um tipo especial de areia denominada
monazítica.[6] Durante a entrevista o cientista
revelou ter encontrado uma peça de magnésio
desconhecida no planeta Terra, objetivando criar certa
expectativa entre os ouvintes.
Pouco depois, o apresentador de “Paradão do Rayol”,
informou que um cientista do Observatório de Monte
Palomar, teria visto uma série de explosões de gases
incandescentes na superfície do planeta Marte que
expeliam partículas em uma “velocidade fantástica” em
direção ao planeta Terra. A informação foi confirmada
pelo suposto cientista do Observatório Nacional do
Rio de Janeiro, que comparou as explosões
marcianas às “chamas azuladas saídas de um cano de
revólver”. Os boletins informativos distribuídos ao
longo do programa, assim como na transmissão de Orson
Welles, contribuíram para induzir os ouvintes de que
estavam presenciando acontecimentos verdadeiros.
Para
impressionar aos ouvintes, o roteirista buscou
estratégias como o anúncio de que a Rádio Difusora AM
entraria em cadeia com a Rádio Repórter do Rio de
Janeiro e que manteria o seu sistema de escuta junto à
emissora Voz da América e à BBC de Londres.
Outro artifício utilizado foi noticiar que a
Organização Meteorológica Internacional havia
solicitado que todos os observatórios da Terra
ficassem atentos às mudanças ocorridas em Marte.
[7]
Como
a cidade estava ligada ao continente por uma ponte no
Estreito dos Mosquitos, o idealizador do programa
decidiu que a aterrissagem da nave alienígena deveria
ocorrer na entrada da cidade, no Campo de Perizes.
Desse modo, o roteirista esperava evitar distúrbios
nas ruas e uma possível fuga em massa, pois acreditava
que as pessoas teriam medo de passar por um local de
maior perigo, quando já se havia noticiado que uma
equipe de reportagem haveria sido desintegrada pelos
invasores nesse local.
O
programa também anunciou que o Exército Brasileiro
estava em prontidão, e que o 24º Batalhão de Caçadores
de São Luis estava recolhido ao Quartel pronto para
entrar em ação. A situação representada através da
estação de rádio tornava-se cada vez mais dramática à
medida que a narrativa informava a aproximação dos
extraterrestres à capital. Os momentos mais
ameaçadores do fantasioso relato foram: o extermínio
da equipe de reportagem, a queda de uma esfera
metálica de 30 metros de diâmetro e a aproximação de
uma densa nuvem negra mortífera. Outra notícia que
certamente deixou muitos ouvintes estarrecidos foi um
informe em que se buscava convencer ao ouvinte de que
eventos semelhantes estavam a ocorrer no Rio de
Janeiro. Confirmando a informação anterior de que a
emissora entraria em cadeia com a Rádio Repórter, a
estação maranhense retransmitiu a desoladora cena de
destruição causada pelos invasores na enseada de
Botafogo, como se ela fosse vista a partir “de um dos
edifícios mais altos da cidade”.
A
divulgação de tais notícias, de acordo com um
documento emitido pela Divisão de Segurança do Comando
da 3º Zona Aérea do Ministério da Aeronáutica, causou
pânico em todo o Estado (200/CISA/BR, 1971). Não
apenas o Comandante do 24º BC recebeu inúmeros
telefonemas de ouvintes completamente aterrorizados,
como também a emissora atendeu a várias ligações de
pessoas desesperadas que tinham parentes em outros
estados, e até mesmo do Capitão da Polícia Militar,
ávido por informações sobre a invasão marciana.
O
impacto que a “invasão” teve sobre a população pode
ser avaliado pela decisão estabelecida em reunião do
Comandante do 24º BC com Juízes Federais, Procurador
da Justiça Estadual e Delegado da Polícia Federal, de
retirar imediatamente a emissora do ar. A penalidade
só não foi maior porque a equipe montou um truque de
edição. O programa gravado e que foi apresentado aos
órgãos de segurança depois da transmissão, teve
acrescido o texto “ficção científica baseada em Orson
Welles”, que não havia sido lido na transmissão. A
fraude, associada ao fato de que o programa havia sido
previamente liberado pela censura, contribuiu para
evitar que a emissora fosse punida pelo Departamento
Nacional de Telecomunicações (Dentel). No entanto, o
Comandante do 24º BC em São Luís, depois de ouvir a
versão que continha o texto “ficção científica baseada
em Orson Welles”, exigiu que as empresas de
comunicação do proprietário da emissora de rádio, a
Rádio e a TV Difusora, veiculassem uma nota de
esclarecimento a cada meia hora para tranqüilizar a
população (ARAUJO, 2004).
Com
exceção de alguns casos de invasão da emissora por
cidadãos indignados com o programa, nenhum incidente
mais grave foi registrado, mesmo porque a Polícia
Federal logo assumiu o controle da situação. Em meio a
vários casos de mal súbito entre a população, algumas
pessoas prometeram até revide à bala contra a emissora
e seus proprietários caso o estado de saúde de seus
familiares se agravasse. Embora o idealizador do
roteiro houvesse tomado algumas precauções para não
causar transtornos com o seu programa, o pânico
causado por uma suposta invasão marciana, chegou até
mesmo à família do proprietário da estação, que, na
época era Chefe da Casa Civil do Governo do Estado.
Uma
esquadrilha da Força Aérea Brasileira (FAB), de
Belém-PA, também levou a transmissão a sério. Quando
sobrevoava uma região próxima a São Luis logo após o
término do programa, a esquadrilha recebeu a notícia
da suposta invasão e a ordem de retornar imediatamente
à sua base ignorando o destino previamente estipulado
(200/CISA/BR, Op. cit.).
Ocorrido no auge da ditadura militar, o fato chama a
atenção pela sua singularidade e pela presença de
elementos associados a idéias que não existiam nem em
1898, nem em 1938, revelando, assim, uma nítida
influência de temores identificados com a Guerra Fria.
A guerra dos mundos imaginada em São Luis, diferente
das anteriores, uniu campos ideológicos opostos em um
conflito nuclear entre extraterrestres e terráqueos.
Sua apresentação através de idéias ligadas àquele
momento histórico, tornou verossímil o programa de
rádio por meio da atualização de uma fórmula que já
havia dado certo nas décadas anteriores.
Pesquisas feitas após a transmissão do programa de
Orson Welles, em 1938, apontaram que a enorme confusão
causada pelo programa de rádio estava diretamente
ligada à falta de senso crítico, à desinformação de
setores da sociedade com baixa escolaridade e a
sintonizações tardias do programa (Cerca de 50 % dos
ouvintes declararam haverem iniciado a audição da
transmissão após o seu começo) (CANTRILL, H; GAUDET,
H., & HERZOG, H. Op cit; CUNHA, 1998:172-173).
Outrossim, podemos considerar que o impacto não apenas
do programa transmitido nos EUA, mas também no Brasil,
está intimamente ligado ao realismo do programa, ao
prestígio dos locutores, à linguagem utilizada e
principalmente à aceitação do rádio como um veículo de
notícias importantes e verossímeis. Os resultados
semelhantes, a despeito da quantidade de informações,
contextos e localidades distintas apontam, afinal,
para algumas possibilidades de manipulação dos meios
de comunicação. Tais experiências revelam a
necessidade de estudos sistematizados de
audiência/recepção que ajudem a iluminar os variados e
complexos processos de formação da opinião pública (ORTRIWANO,
2002).
Inúmeras invasões marcianas foram representadas ao
redor do mundo levando milhares de pessoas a acreditar
que a humanidade estava próxima de seu fim. O impacto
social de tais representações foi tão expressivo, que
um questionamento acerca da influência exercida pelos
meios de comunicação, é praticamente inevitável.
Algumas vezes divertidas, e na maioria delas
imprudentes, as representações de A Guerra dos
Mundos chamam a atenção para a forte influência
exercida pelos meios de comunicação na formação de
nossas opiniões.
As
repetidas invasões alienígenas imaginadas com tanta
criatividade revelam a importância de sabermos
discernir o que lemos, ouvimos ou assistimos (SAGAN,
1996). Além disso, um pouco de ceticismo pode evitar
que saiamos de nossas casas pedindo ajuda apavorados
ao ouvirmos que “os marcianos estão chegando!”.
NOTAS:
[1]Handley Cantrill,
diretor do Instituto de Pesquisas de Opinião Pública
na Universidade de Princeton, realizou um importante
trabalho sobre os efeitos da transmissão de Orson
Welles. Embora tenha se interessado pouco sobre o meio
utilizado, seu livro apresentou um amplo estudo sobre
a recepção do programa nos EUA (CANTRILL, GAUDET,
HERZOG, 1940; VELA, 1998).
[2] A Literatura que
trata da relação entre religiosidade e Guerra Fria nos
EUA é bastante ampla. Todavia, a influência religiosa
na política norte-americana aparece de forma mais
clara na retórica assentada na Bíblia e nas formas
pelas quais os estadunidenses retornam a essa retórica
em épocas de crise, como uma fonte de coesão e
continuidade; o encontro do Dr. Clayton Forrester (Genne
Barry) com Sylvia Van Buren (Ann Robinson (1935 -) no
salão principal de uma Igreja em meio a cânticos e
pedidos por um milagre (1h 22min 3s) e, logo após, a
narrativa que relaciona a derrota dos marcianos à
providência divina são exemplos dessa retórica (BELLAH,
1992; ZELINSKY, 1988; BERCOVITCH, 1988; AZEVEDO,
2001).
[3] “quando ouvi essa
emissão, meti-me no carro e fui a Carcavelos. Afinal,
não vi nada. Isso dos marcianos, é verdade, ou
não?...”; “Tenho o meu namorado em Vila Nova de Gaia,
e ouvi dizer que havia lá guerra. É verdade?” (DIARIO
POPULAR, Op cit.).
[4] “tenho uma pessoa,
doente em casa, que teve um ataque ao ouvir o
programa...” (Idem, Ibidem).
[5] “O programa deu-me
cabo dos nervos! Vou aí e parto-lhes a cara!” (Idem,
Ibidem).
[6] A Monazita é um
mineral da classe dos fosfatos e, atualmente,
classificada a partir de sua constituição química e da
percentagem dos metais tório, cério e
lantânio presentes em sua composição. O tório,
em especial, é um metal altamente radioativo que pode
ser substituído pelo urânio e usado como combustível
na geração de energia nuclear. (DEPARTMENT OF HEALTH
AND HUMAN SERVICES, 1990: 63-65; WORLD NUCLEAR
ASSOCIATION, 2004).
[7]. Em 1971 a
Organização Meteorológica Internacional (OMI), fundada
em 1873, já não existia mais. O Convênio Meteorológico
Mundial, pelo qual se criou a Organização
Meteorológica Mundial (OMM), foi firmado na XII
Conferência dos Diretores da Organização Meteorológica
Internacional (OMI) reunida em Washington em 1947.
Ainda que o Convênio só tenha entrado em vigor em
1950, a OMM iniciou suas atividades como sucessora da
OMI em 1951 e, em fins desse ano, se estabeleceu como
organismo especializado das Nações Unidas por acordo
entre a ONU e a OMM. (ORGANIZACIÓN METEOROLÓGICA
MUNDIAL, 2005).
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FILME:
A
GUERRA dos Mundos (The War of the Worlds)
Direção de Byron Haskin. Roteiro de Barré
Lyndon e inspirado no livro homônimo de H.G. Wells.
USA. Produzido por George Pal. Dist. Paramount
Pictures, 1953. 1 fita (85 min.); p&b: VHS.