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Entrevista

 

Susan Clancy, a psicóloga que matou os marcianos seqüestradores: “Estou farta dos extraterrestres”.
 

Entrevista concedida ao site La Nave de los Locos (NL). Traduzido por Rodolpho Gauthier. Publicado em português com a gentil autorização de Diego Zuñiga.
 

A especialista da Universidade de Harvard publicou em outubro do ano passado (2005) o livro “Abducted: How People Come to Believe They Were Kidnapped by Aliens” e de imediato uma tropa de amantes dos marcianos atacaram sua jugular. Ela está um pouco aborrecida com isso, mas se mostra satisfeita com o resultado do seu trabalho, que espera ser traduzido para o espanhol ainda esse ano.

Susan Clancy pede desculpas por responder em inglês ao questionário de perguntas que este pasquim (La Nave de los Locos) lhe enviou via e-mail (e que foi publicado, em parte, pelo diário Las Últimas Notícias há alguns meses), pois disse que durante os anos em que viveu na Nicarágua, América Central, não foi capaz de aprender o espanhol suficiente para salvá-la dos aspectos mais elementares da vida. Isso, pese que agora dá aulas de vez em quando no Instituto Centroamericano de Administración de Empresas, em Manágua.

Agora nos conta que tem um bebê de poucos meses e outros dois que não superam os quatro anos. Por isso nesses dias não dorme muito e faz grande esforço para que sua vida tome um giro mais tranqüilo depois do vendaval que aconteceu com ela no meio do baile e que a levou as profundezas desse exótico mundo chamado “ufologia”.

Tudo porque durante 2005 esta bela psicóloga norte-americana da Universidade de Harvard, a mesma onde John Mack hipnotizou quantas pessoas quis, ganhou reconhecimento massivo depois de publicar seu livro ““Abducted: How people come to believe they were kidnapped by aliens” (Abduzidos: como as pessoas chegam a acreditar que foram raptadas por extraterrestres). Nele, mostra os resultados que obteve depois de indagar um bom número supostos seqüestrados por seres de outros mundo, a quem protegeu mudando os nomes. Sua obras tem sido tão influente que já acumula dezenas de citações em vários papers científicos.

Seu interesse principal era pesquisar as memórias recuperadas por meio da hipnose. Quando percebeu que podia meter-se em um tema espinhoso, devido ao tema dos falsos abusos sexuais supostamente cometidos por familiares que causaram comoção nos Estados Unidos há alguns anos - e que mostraram-se invenções de terapeutas imbecis que criaram essas recordações através da hipnose, - Clancy pensou que seria melhor falar de marcianos e afastar-se de assuntos que poderiam dificultar uma pesquisa que levava um bom rumo.

Aí começou, de algum modo, um castigo. Nessa época, falamos de uns três anos e meio atrás, Clancy decidiu colocar em vários diários um aviso perguntando “Você foi abduzido?”. Quase de imediato seu telefone começou a tocar. Os peixes haviam mordido o anzol.

NL: Já está mais ou menos dito, mas seria novamente bom que você contasse como se interessou por esses temas.

CLANCY: Estava em Harvard como estudante de psicologia interessada no estudo da criação de falsas memórias, especificamente por que e como as pessoas desenvolvem estas falsas memórias. Encontrava-me trabalhando nesse projeto com Dan Schacter, um conhecido pesquisador nesse campo. A princípio estudei pessoas que recuperaram na terapia as recordações de abusos sexuais. Olha, para fazer esse relato mais curto, vou te contar que a maioria dos cientistas pensa que a repressão não existe, por isso quando as pessoas reprimem e recuperam recordações está na realidade recuperando coisas que jamais sucederam.

NL: Perfeito. Estou acompanhando.

CLANCY: O problema é que estudar os abusos sexuais nos Estados Unidos é algo muito político, pra dizer de alguma maneira. Era perigoso para minha carreira sugerir que algumas pessoas estavam “criando” suas histórias de abusos. Portanto, decidi tomar um tema que, pensei, seria menos controverso: as abduções alienígenas. Como eu estava equivocada! Você sabe que os relatos de seqüestros alienígenas não são nada estranhos nos Estados Unidos, e como não existem evidências científicas que os sustentem, pensei que era uma boa maneira de estudar a criação de uma falsa memória.

NL: Por que uma pessoa normal acreditaria e diria que está sendo raptado por estranhos seres de outros planetas?

CLANCY: A melhor forma de responder isso é deixar claro que ninguém acorda com recordações vívidas de ter sido abduzido por extraterrestres. Chegar a crer que está sendo abduzido é parte de um processo muito mais longo. As pessoas estão buscando explicações para certas experiências insólitas que têm (problemas sexuais, episódios de depressão, dificuldades para dormir etc) e, para melhor ou pior, hoje, ser abduzido por alienígenas é umas das explicações culturais disponíveis para satisfazer certos problemas ou experiências que alguém pode tido.

NL: Entendo. E que tipo de patologias você encontrou entre os sujeitos das suas pesquisas?

CLANCY: Nenhuma! A única coisa que encontrei é que as pessoas que eventualmente desenvolvem recordações de abduções alienígenas são mais propensas às fantasias, mais criativas e melhores para imaginar coisas que outras pessoas também estimuladas no consultório.

NL: Você disse que as pessoas crêem que são abduzidas como conseqüências de certo contexto cultural que permite o desenvolvimento dessas crenças.

CLANCY: Sim. O que acontece basicamente é que as pessoas começam a se perguntar se foram abduzidas pelo que têm lido ou visto na televisão e nos filmes. Pense em séries como Arquivo X ou filmes como Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Mas as pessoas não estão seguras disso até que desenvolvem suas memórias autobiográficas. E isso não acontece até que se encontrem ou acudam a um pesquisador ou um terapeuta de abduções que usa a hipnose para ajudá-las a “recordar” o que elas acreditam que deve ter ocorrido.

NL: A hipnose funciona?

CLANCY: Mais de três décadas de pesquisa científica demonstram que a hipnose é uma péssima forma de conseguir recordar coisas. Mas é uma boa maneira de criar falsas memórias. Sob hipnose as pessoas se tornam mais propensas a confundir as coisas que imaginam, lêem ou vêem na televisão com coisas que realmente aconteceram.

NL: Em geral, as pessoas pensam que a hipnose é uma ferramenta confiável.

CLANCY: A essas pessoas dou um conselho: não usem a hipnose para recuperar memórias perdidas ou para completar detalhes confusos da sua vida. Talvez possa usá-las para deixar de fumar.

NL: Qual sua opinião sobre o trabalho do Dr. John Mack? Você sabe, um crente nos extraterrestres que faleceu há pouco tempo.

CLANCY: Creio que John Mack era um grande cara. Encontrei-me com ele várias vezes antes de sua morte (atropelado em Londres. Nota do Editor). Creio que o problema com Mack é que usava a hipnose para recuperar recordações de abduções de seus pacientes. Como muitos terapeutas, pensou que a intensidade emocional das memórias era indicativa da veracidade delas. Contudo, hoje sabemos que as falsas memórias podem ser sentidas de maneira tão real como as verdadeiras e não importa quão reais pareçam as recordações, porque quando são recuperadas sob terapia você não pode confiar nelas.

NL: Você recebeu ameaças de crentes nos extraterrestres?

CLANCY: Sim. Recebi ataques de muitos daqueles que apenas ouviram falar do meu livro. Até hoje! Isso tendo em conta que a pesquisa que deu forma ao livro foi publicada há vários anos, na revista "Psychological Science", em 2003. Desde que esse estudo começou (demonstrando que os abduzidos eram mais propensos a criar falsas memórias em laboratório do que aqueles que não crêem ter sido abduzidos), eu sou a inimiga número um da comunidade de abduzidos.

NL: Você pode contar algum caso curioso que você encontrou durante seu estudo?

CLANCY: Sim, lembro-me de uma mulher que entrevistei. Ela dizia se médium, o que significa que servia como intermediária entre os humanos e os extraterrestres. Enquanto eu a estava entrevistando a mulher caiu no chão e começou a ter convulsões. Nesse estado me disse que isso lhe acontecia porque os extraterrestres estavam possuindo seu corpo e que queriam falar comigo.

NL: Sério?

CLANCY: Claro. Eles queriam dizer-me que a razão pela qual eu estava interessada nesses temas era porque formava parte de um grupo de elite extraterrestre que vivia em outro universo. Além disso, eu tinha um bebê que era metade extraterrestre. Na realidade, isso tem uma história muito mais longa. Essa mulher me perguntou se eu já havia sofrido algum aborto. Eu lhe disse que sim (é uma experiência muito triste na minha vida). Então me contou que o que eu havia vivido não havia sido um aborto, mas que os extraterrestres haviam roubado meu filho. E me perguntou se queria falar com meu bebê, que agora tinha nove anos. Obviamente lhe disse que não e deu por terminada a entrevista.

NL: Esse tipo de coisas não te fizeram cansar do tema? Recordo que você disse em uma entrevista que estava farta dos marcianos.

CLANCY: Estou farta dos extraterrestres porque na realidade nunca estive interessada neles. O que me interessa é perguntar como e por que as pessoas desenvolvem memórias de coisas que nunca lhe aconteceram. Então falar com pessoas que tinham recordações de abduções foi uma boa maneira de tratar e entender mais sobre como se geram essas falsas recordações. Depois de cinco anos entrevistado abduzidos, creio que aprendi tudo o que se podia sobre o tema. Estou pronta para voltar para minha área natural, os abusos sexuais.