CULPADOS OU INOCENTES?
A corroboração de um evento por outra
pessoa é uma técnica eficaz de promover implantes de
memória(1). Se outras pessoas alegam ter visto
alguém agir de certo modo, isto pode levar algumas
pessoas altamente sugestionáveis a admitir o fato que
nunca ocorreu. Mais interessante: podem levar a pessoa a
confessar(2), remoendo-se em sentimentos de culpa
e relatando detalhes de sua participação (muitas vezes
baseando-se em informações obtidas bem depois). Existem
vários casos documentados pela justiça norte-americana
de réus confessos condenados, cuja inocência foi
demonstrada por evidência irrefutável anos mais tarde.
Estes réus acreditavam em suas versões, mas admitiram
terem sido sugestionados e, algumas vezes, se deram
conta de que imaginaram elementos, atordoados pelas
pressões da acusação.
Esse efeito foi bem ilustrado no
brilhante experimento do psicólogo social Saul M. Kassin
e colegas(3), desenhado para investigar as
reações de indivíduos falsamente acusados de danificar
um computador “apertando a tecla errada”. Os
participantes, no começo, negavam ter apertado a tecla,
pois foram advertidos enfaticamente a não fazê-lo sob
pena de estragar a máquina. No entanto, o quadro mudava
quando um experimentador disfarçado de participante, que
fingia fazer a mesma tarefa em um computador ao lado,
afirmava ter visto a pessoa apertando a tecla errada.
Muitos sujeitos inocentes chegaram ao ponto de assinar
uma confissão por escrito, demonstrando vários
indicadores de internalização da culpa pelo ato. No
entanto, o que é realmente fascinante é que os sujeitos
confabularam detalhes que eram consistentes com a crença
falsa de ter apertado a tecla errada.
O trabalho de pesquisadores como
Loftus, Hyman e Kassin, entre outros, lança luz em
questões cruciais na gênese de falsas memórias, ao
investigar como as sugestões recebidas das outras
pessoas se combinam com as memórias reais na mente
humana. As evidências acumuladas lançam sérias dúvidas
sobre a autenticidade e a fidedignidade de lembranças
longínquas da infância, especialmente em se tratando de
eventos traumáticos que condizem com as expectativas
teóricas deum psicoterapeuta e, muitas vezes, dos
pacientes.
(1)
KASSIN, 1997;
KASSIN & KIECHEL,
1996;
RUBIN, 1996
(2)
KASSIN, 1997; KASSIN & KIECHEL, 1996
(3)
KASSIN & KIECHEL, 1996