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Implantes de memória

 Por Marco Montarroyos Callegaro

CULPADOS OU INOCENTES?

A corroboração de um evento por outra pessoa é uma técnica eficaz de promover implantes de memória(1). Se outras pessoas alegam ter visto alguém agir de certo modo, isto pode levar algumas pessoas altamente sugestionáveis a admitir o fato que nunca ocorreu. Mais interessante: podem levar a pessoa a confessar(2), remoendo-se em sentimentos de culpa e relatando detalhes de sua participação (muitas vezes baseando-se em informações obtidas bem depois). Existem vários casos documentados pela justiça norte-americana de réus confessos condenados, cuja inocência foi demonstrada por evidência irrefutável anos mais tarde. Estes réus acreditavam em suas versões, mas admitiram terem sido sugestionados e, algumas vezes, se deram conta de que imaginaram elementos, atordoados pelas pressões da acusação.

Esse efeito foi bem ilustrado no brilhante experimento do psicólogo social Saul M. Kassin e colegas(3), desenhado para investigar as reações de indivíduos falsamente acusados de danificar um computador “apertando a tecla errada”. Os participantes, no começo, negavam ter apertado a tecla, pois foram advertidos enfaticamente a não fazê-lo sob pena de estragar a máquina. No entanto, o quadro mudava quando um experimentador disfarçado de participante, que fingia fazer a mesma tarefa em um computador ao lado, afirmava ter visto a pessoa apertando a tecla errada. Muitos sujeitos inocentes chegaram ao ponto de assinar uma confissão por escrito, demonstrando vários indicadores de internalização da culpa pelo ato. No entanto, o que é realmente fascinante é que os sujeitos confabularam detalhes que eram consistentes com a crença falsa de ter apertado a tecla errada.

O trabalho de pesquisadores como Loftus, Hyman e Kassin, entre outros, lança luz em questões cruciais na gênese de falsas memórias, ao investigar como as sugestões recebidas das outras pessoas se combinam com as memórias reais na mente humana. As evidências acumuladas lançam sérias dúvidas sobre a autenticidade e a fidedignidade de lembranças longínquas da infância, especialmente em se tratando de eventos traumáticos que condizem com as expectativas teóricas deum psicoterapeuta e, muitas vezes, dos pacientes.

(1) KASSIN, 1997; KASSIN & KIECHEL, 1996; RUBIN, 1996
(2)
KASSIN, 1997; KASSIN & KIECHEL, 1996
(3)
KASSIN & KIECHEL, 1996

 

 

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