INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS
O ambiente terapêutico pode ser
bastante propício à sugestionabilidade, criando as
condições favoráveis aos implantes de memória. Um
procedimento comum em psicoterapia, por exemplo, é o
uso da interpretação dos sonhos, que foi investigado
pela psicóloga italiana Giuliana Mazzoni em
colaboração com Loftus(1). Inicialmente, as
pesquisadoras solicitaram aos sujeitos que avaliassem
se determinadas experiências tinham realmente ocorrido
ou não, para ter certeza que certos eventos não haviam
acontecido. Tratava-se de três eventos sobre supostas
lembranças desagradáveis anteriores aos três anos de
idade (ficar perdido em um lugar público, estar
sozinho e perdido em lugar desconhecido ou ser
abandonado pelos pais). O próximo passo foi testar a
hipótese de que a interpretação dos sonhos poderia
ajudar, através da sugestionabilidade, a criar
experiências do passado em nossa memória construtiva.
Os sujeitos foram distribuídos em dois grupos, sendo
então submetidos a uma atividade terapêutica de
interpretação de sonhos com um psicólogo. Em um dos
grupos não foram feitas sugestões e no outro o
psicólogo insinuou que os sonhos interpretados
continham lembranças reprimidas de eventos que teriam
acontecido antes dos três anos revelando,
precisamente, as experiências que os sujeitos
afirmaram anteriormente nunca ter vivenciado. Duas
semanas mais tarde, a maioria dos sujeitos que
receberam as sugestões lembrava pelo menos uma das
três experiências sugeridas, enquanto os sujeitos que
não receberam as insinuações não recordaram nenhum
evento implantado. Este resultado aponta para a
inquietante possibilidade de que a interpretação
sugestiva dos sonhos pode induzir a construção de uma
estrutura fictícia de lembranças de experiências
passadas, alterando para sempre nosso conhecimento
consciente autobiográfico.
(1) MAZZONI & LOFTUS, 1998