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Gênese, Fim e Futuro da Ufologia (parte 2 de 2)

por Kentaro Mori, autor do site
Ceticismo Aberto
 

O Futuro

O que vemos hoje é uma "ufologia" que se igualou a uma versão pseudocientífica da astrobiologia, sem se preocupar com OVNIs, mas com alienígenas. Esta pseudociência nunca deverá acabar, e seu futuro só depende da habilidade de seus promotores de cativar o interesse natural que todos temos pelo desconhecido e pelo enigma da imensidão do espaço aparentemente vazio que vemos todas as noites. Isto pode ser feito de forma pedante e oportunista, com a venda sensacionalista de mitos e desinformação deliberada. Mas também pode ser feito de forma criativa, com histórias emocionalmente tocantes ou que pelo menos entretenham sem maiores danos.

Iniciativas céticas que estudam relatos de OVNIs, e não diretamente OVNIs reais, têm por sua vez um grande caminho pela frente. Trabalhos como os de Martin Kottmeyer, indicando de forma clara os aspectos culturais de relatos de abdução e mesmo dos relatos de OVNIs, [9] são uma demonstração do potencial desta abordagem de fazer com que a Ufologia, se não vai revelar muito sobre os OVNIs, revele muito sobre nós mesmos, que relatamos OVNIs.

Afinal, esta abordagem é justamente a que deveria ter sido tomada desde o começo, filtrando relatos pelo seu valor social e cultural para que eventuais evidências físicas relevantes possam ser analisadas em seu devido contexto.

Isto dá a deixa para notar que mesmo o fim da Ufologia, centrada no estudo de OVNIs apenas, não é definitivo. O que procurei atentar neste texto é que a Ufologia começou pressupondo uma invasão de "algo" que estava causando um quase-pânico e precisava ser assim identificado. Não se imaginou que o pânico poderia ser mais um fenômeno social do que a resposta a uma invasão, fosse ela comunista ou alienígena. A abordagem nascida desta falha foi definida como "a" Ufologia, mas estava essencialmente errada, sem levar a lugar algum a despeito de muitas tentativas sérias e bem-intencionadas.

Isso pode mudar. Poderemos nos ver em uma situação onde relatos de OVNIs são provocados mais por um contato com algo desconhecido do que como resultado de processos culturais. E já que estamos falando do futuro, um evento que já começou pode provocar esta mudança: o turismo espacial.

Relatos sobre astronautas e OVNIs, embora sejam em grande parte distorções e por vezes mentiras deliberadas para a venda de sensacionalismo, [10] têm em alguns casos fundamentos. Um número considerável de astronautas voltou à Terra relatando contatos inusitados e outros fenômenos estranhos.

O advento do turismo espacial, que deve levar nas próximas décadas milhares de pessoas à órbita, e em mais algum tempo para além, deve gerar uma nova onda de relatos sobre OVNIs, que podem vir a ser provocados por fenômenos físicos desconhecidos e reais. Aliando isto à ampla disseminação de instrumentos de registro e comunicação, o futuro pode reservar muito.

Só esperemos que se apesar dessas expectativas, outra vez relatos de OVNIs no espaço abundarem e evidências físicas forem escassas, não cometamos o erro de tentar reviver a Ufologia criada por militares há mais de meio século.

Agradecimentos

Agradeço aos comentários e sugestões de Fernando Walter, do CETESbr, e de Fernando Caldas e Rodolpho Gauthier, da OPUs. Todas as partes louváveis deste texto devem muito a eles, enquanto todas as falhas são certamente minhas, incluindo a falta de originalidade deste agradecimento.

Notas

[1] Ruppelt escreve: "UFO é o termo oficial que criei para substituir as palavras 'discos voadores'" (Report on Unidentified Flying Objects, disponível em http://www.nicap.dabsol.co.uk/one.htm )

[2] Relatos por si só não têm valor suficiente para estabelecer a realidade de um fenômeno físico desconhecido. Relatos de "testemunhas confiáveis" ou de múltiplas testemunhas são um elemento importante, mas na ufologia sua única utilidade prática deveria ser a de levar à descoberta de evidências físicas corroboradoras.

[3] OVNIs são simplesmente objetos não-identificados. Através de investigação, pode-se estabelecer que um OVNI era de fato um OVI, ou seja, que o OVNI era em verdade irreal. Contudo, podemos imaginar que alguns OVNIs sejam derivados de fenômenos desconhecidos, incluindo mesmo, mas não limitados a, naves extraterrestres. Tais OVNIs podem ser definidos como OVNIs reais (uma variante de "OVNIs autênticos", termo evitado por dar a entender que existam OVNIs falsos, o que só seria um termo apropriado no caso de fraudes deliberadas).

[4] Para um caso a ajudar a ilustrar o ponto, ver Experimental UFO Hoaxing, de D. I. Simpson, em http://www.magonia.demon.co.uk/arc/70/hoax.html

[5] Ver 'Para onde caminha e qual é o futuro da Ufologia Brasileira', de Carlos Alberto Reis.

[6] Contatados eram inicialmente ignorados por ufólogos, provavelmente porque pareciam macular a seriedade da área com suas histórias fantásticas demais. Curiosamente, as histórias dos abduzidos parecem tão ou mais fantásticas.

[7] Existem iniciativas promissoras de investigação de OVNIs apenas, mas que diferem da Ufologia criada pelos militares. Muitas vezes não pressupõem a existência de OVNIs reais, considerando-os uma possibilidade e não uma certeza.

[8] "O governo está tentando segurar a água com as mãos e o líquido está escorrendo em quantidades cada vez maiores", declarou AJ Gevaerd para a IstoÉ de 2/08/1995, implicando que grandes revelações estariam para surgir em breve. Quase oito anos depois, ele ainda parece dizer praticamente o mesmo.

[9] Todos trabalhos de Kottmeyer são relevantes, mas cabe indicar aqui dois mais clássicos: Os Olhos que Falavam ( http://www.ceticismoaberto.hpg.com.br/ kott_eyesspoke.htm ) e Completamente Impredispostos (http://www.ceticismoaberto.hpg.com.br/kott_entirely.htm ).

[10] Ver ‘Astronaut "UFO" Sightings’, em http://www.debunker.com/texts/astronaut_ufo.html

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