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O
que é Pesquisa Ufológica?
por Fernando J. M. Walter
Texto originalmente publicado no site
CETESBR
Reproduzido neste site com
autorização do autor
"...fazemos ciência com fatos, assim como construímos
uma casa com pedras, mas uma acumulação de fatos não é
ciência assim como não é uma casa um monte de pedras"
Henri Poincaré, "A Ciência e a Hipótese" – 1902
... E continuam
chegando às minhas mãos as costumeiras revistas e
boletins relacionadas ao fenômeno OVNI, bem como o
constante fluxo de informações transmitidas, pela
Internet, sobre o tema.
Toda essa informação,
no entanto, possui praticamente o mesmo conteúdo. São
novos "casos" envolvendo, em maior ou menor proporção, a
escala elaborada por J. Allen Hynek (os chamados
"Contactos Imediatos", em Português). Excluem-se dessa
massa de dados, logicamente, as inúmeras querelas
pessoais que interessam, creio, somente aos nelas
diretamente envolvidos ou aos respectivos acólitos.
Os textos
invariavelmente oscilam entre o sensacionalismo, de
matiz semelhante ao que habita nossos jornais, até às
ditas "abordagens objetivas" realizadas pelos
"estudiosos" do fenômeno, que ostentam quase sempre uma
capacidade mínima, muito sutil, de análise coerente dos
fatos disponíveis.
A partir do período no
qual começou a cristalizar-se a dicotomia "Ufologia
Científica - Ufologia Esotérica", os auto-denominados
partidários de uma ou outra corrente eventualmente
trocam argumentações defendendo a abordagem do fenômeno
a partir de óticas (evidentemente) coerentes com as
respectivas linhas de pensamento. Com o passar dos anos,
surgiu - de forma previsível - uma espécie de terceira
via, a qual não renega, de forma absoluta, qualquer das
duas correntes principais. Encontram-se nela aqueles
pesquisadores de "mente aberta", que buscam explicações
em um ou outro lado, visando a justificar suas opiniões.
Não haveria nada de
errado em tudo isso, visto que a Ufologia não é, nem
nunca foi oficialmente considerada uma ciência. Não
existem Universidades que formam Ufólogos, nem conselhos
que regulamentem a profissão. Um "ufólogo" não pode se
aposentar, apresentando-se como tendo exercido essa
profissão. Tampouco existe essa categorização no
registro de profissões que devem ser indicadas na
declaração de Imposto de Renda.
Assim, é importante
deixarmos bem claro que um "ufólogo científico" na
realidade é um pesquisador que, a seu próprio modo de
ver, conduz - ou deveria conduzir, ao menos – seus
estudos seguindo metodologia sistemática, bem definida.
Suas opiniões deveriam sempre ser pautadas pela lógica,
embasadas por fatos científicos bem conhecidos, e suas
especulações elaboradas a partir do estudo dos dados
disponíveis.
Tenho consciência de
que o que foi exposto acima é quase uma impossibilidade.
A maioria dos pesquisadores (creio eu) desenvolve, de
forma justificada, outras atividades profissionais
necessárias ao seu sustento. Não se pode, assim, exigir
dedicação exclusiva à pesquisa ufológica.
Nada disso justifica,
no entanto, o cenário desolador que vimos presenciando
já há tantos anos, e – sejamos justos – não só no Brasil
como também no resto do mundo. Pelo fato de praticamente
não existir o profissional "Ufólogo" – não confundir com
o "ufólogo profissional" - muitos se acham no direito
de, invocando o manto da ciência, emitir opiniões
ridículas, usando inclusive muitas vezes, por ignorância
ou talvez má-fé, fatos comprovados cientificamente para,
supostamente, alicerçar afirmações esdrúxulas.
Não sei até que ponto
esses "ufólogos científicos", deixando à parte vaidades
, já se aperceberam da responsabilidade que possuem (que
TODOS nós, aliás, possuímos). Pessoas de todos os
estratos sociais e culturais, e de todas as faixas
etárias que se interessam pelo tema OVNI lêem nossas
opiniões. Preconceitos, fatos errados e idéias absurdas
podem, tal como ervas-daninhas, proliferarem-se muitas
vezes de maneira irreversível na mente das pessoas. E,
claro, a eventual desmistificação posterior dos absurdos
descuidadamente cometidos por pesquisadores dessa
estirpe pode levar pessoas a assumirem uma posição de
ceticismo total e a ridicularizar, sistematicamente,
toda e qualquer informação que venha a ser
disponibilizada, ainda que injustificadamente.
Deseja-se que as
pesquisas possam, efetivamente, ser conduzidas sob uma
abordagem científica? Temos aqui algumas sugestões de
comportamentos a serem adotados:
Continuidade
É absolutamente
aterrador o número de casos pesquisados e que foram
abandonados, ou não tiveram suas conclusões publicadas.
Sempre me questiono o porque disso. Algumas explicações
são óbvias e justificadas. Um processo de investigação
sério demanda pesados recursos financeiros e
operacionais, quase sempre fora do alcance do
pesquisador independente ou mesmo de grupos de pessoas.
No entanto, por que nunca são disponibilizados os dados
obtidos para aqueles com interesse e possibilidades
materiais de continuar a pesquisa? Por que as
informações são trancadas a sete chaves? Afinal, que
tipo de pesquisador é esse que omite informações, muitas
vezes sob uma aura pré-fabricada de mistério, quase
sempre injustificada?
Por que tantos casos,
muitas vezes publicados inicialmente sob intensa
fanfarra, são misteriosamente enterrados e esquecidos? O
pesquisador teria sido ludibriado e envergonhou-se em
reconhecer, publicamente, o erro? Será sempre mais fácil
descarregar a culpa, nessas situações, nos Governos, nos
"Homens de Preto" ou o que seja?
O que me leva muitas
vezes a questionar a seriedade desse tipo de
comportamento é a desconfiança de que na realidade nos
defrontamos aqui com uma questão menos afeta à pesquisa
genuína que aos fenômenos mercadológicos. Possivelmente
a busca desenfreada de casos "novos" justificaria a
existência dos inúmeros congressos e publicações
existentes. Muitos casos importantes, com elevados graus
de estranheza e/ou evidências físicas são postos de lado
– aplicando-se aí, com toda a propriedade, a afirmação
de Poincaré apresentada no início do texto. Passamos
assim a ter um amontoado de dados, de informações, as
quais jamais poderão servir a um propósito prático, em
função do abandono a que logo serão relegados.
Casos notórios como
Roswell e os documentos MJ12 são algumas das exceções de
praxe, e por boas justificativas – haja vista a
quantidade de livros, filmes, etc. direta ou
indiretamente baseados nos mesmos. São exemplos típicos
do famoso princípio de Lavoisier, porém aplicado à
Ufologia. Permanecerão ainda sendo discutidos por um
longo tempo...e não é necessário possuir dons
premonitórios para realizar essa afirmação.
Responsabilidade
Definitivamente, não é
boa política, como já afirmei, arvorar-se a realizar
comentários sobre assuntos sobre os quais não se possui
suficiente informação. Se isso é verdade em relação à
nossa vida cotidiana, muito mais o é em relação ao
fenômeno OVNI. Em um campo no qual lidamos com fenômenos
absolutamente desconhecidos, é forçosa a aplicação
de conhecimentos referentes à várias disciplinas
básicas, algumas delas inter-relacionadas, tais como
Física, Química, Biologia, Sociologia, História,
Geografia, Astronomia, Informática, Lingüística,
Antropologia, Arqueologia, Meteorologia, Astronáutica,
Psicologia e outras, no sentido de realizar avaliações
coerentes dos fatos. Do contrário, continuaremos a
assistir o deprimente festival de sandices e bufonarias
que permeiam as publicações do gênero ou mesmo as
não-especializadas, as lista de discussão na Internet, e
etc. Claro que não estamos aqui afirmando que
pesquisadores, para serem como tal reconhecidos, devam
individualmente possuir conhecimentos extensos
sobre as disciplinas citadas, ou mesmo de grande parte
delas. Porém, noções básicas de algumas destas
disciplinas são fundamentais.
Bom Senso e
Sobriedade
São, com toda a
certeza, excelentes princípios a serem seguidos por
todos aqueles que desejam realizar trabalhos de pesquisa
ufológica. Seja para as pesquisas de campo ou teóricas
(as duas são importantíssimas e intimamente vinculadas),
conhecimento sobre as várias especialidades como as
citadas acima é importante, repetimos, porém pode ser
adquirido a posteriori. Bom Senso e Sobriedade
são , no entanto, pré-requisitos básicos de um bom
pesquisador.
O passar do tempo, o
estudo e a conseqüente definição de uma especialização
científica servirão, enfim, como bases extremamente
sólidas, conjuntamente com os demais aspectos acima
relacionados, para a utilização – afinal - da
Criatividade , fator presente em todos nós, seres
humanos, para a correta abordagem do fenômeno OVNI.
De fato, Poincaré
estava (e está ) corretíssimo. E quem com ele não
concordar, por favor, tire suas pedras do nosso caminho.
Elas estão atrapalhando.
Este
texto é dedicado, respeitosamente, a todos aqueles
pesquisadores que, por seu conhecimento e honestidade
de propósitos, são exemplos a serem seguidos por todos
nós.
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