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Na Terra de Oz (parte 4 de 5)
por Eduardo Dorneles Barcelos
3- Argumento
psicológico:
Rejeita-se a
exobiologia ao lançá-la nas obscuras regiões das
psicologias individuais, funcionando como uma tela para
a projeção de temores e a materialização de esperanças.
a) variante da projeção
de desejos:
O mesmo Simpson (1964),
contundente crítico da exobiologia em suas diversas
facetas, conclui:
"Não há, então,
evidência clara de vida, em qualquer lugar do sistema
solar. A suposição de que uma coisa exista só porque
assim o desejamos, a qual os cientistas não estão
imunes, tem obviamente desempenhado um papel aqui"
(Simpson, 1964:771).
Para Jordan:
"Como forma puramente
psicológica se deve avaliar também uma razão decisiva,
evidente para muitos dos nossos contemporâneos. Tendemos
a considerar o fenômeno natural da vida orgânica como a
verdadeira razão de ser do universo, como o motivo para
cuja realização foi concebido o universo inteiro. O
gigantesco mundo estelar não se apresentaria a nossos
olhos como uma empreitada de incompreensível
esbanjamento se a vida orgânica fosse, apenas, um
fenômeno natural completamente raro e isolado na
imensidade do cosmos? Também esta consideração, que para
muitos partidários da crença na existência doutros
sistemas planetários habitados é a base de sua
convicção, também ela carece de qualquer importância, do
ponto de vista da demonstração científica. O universo
astronômico não pode ser julgado segundo conceitos
humanos de poupança ou esbanjamento, de oportunidade e
rentabilidade. A questão de existirem ou não numerosos
corpos celestes habitados é uma questão de factos."
(Jordan, 1970:197-198).
b) variante da
salvação:
O esperado contato,
propalado por muitos pluralistas como uma possível
solução dos problemas sociais contemporâneos, é lembrado
por Tipler:
"A expectativa de que
nós seremos salvos de nós próprios por alguma miraculosa
intervenção interestelar" (Tipler, 1980:278);
Em sua perspectiva
histórica do conceito da pluralidade dos mundos
habitados, Beck assinala que:
"a esperança
escatológica de ajuda celeste revive quando os céus da
nova astronomia substituem o Céu da religião" (Beck,
1972:25)
c) variante da rejeição
do geocentrismo:
Em sua exposição,
Illies exibia uma das suposições histórico-filosóficas
que sustenta muitos pluralistas (cf. também Hendricks,
1990:245):
"Actualmente, cada um
de nós é um novo Galileu, e, depois de tudo quanto a
ciência nos ensinou, não conseguiríamos suportar que
alguém tentasse convencer-nos de que a Terra é o centro
do Universo" (Illies, 1970:73).
Negar qualquer
possibilidade de retorno a uma perspectiva geocêntrica
(se a espécie humana fosse solitária na Galáxia) também
fundamenta alguns partidários da exobiologia.
4- Argumento
oportunista:
Para o astrofísico
Willem Luyten, a exobiologia ("we can neither prove nor
disprove it", Luyten, 1964:231) consiste apenas num
desperdício injustificado do erário público, levado o
cabo por cientistas inescrupulosos:
"...is it
simply that the line for bigger NASA contracts forms to
the right - in front of the rainbow labeled Life outside
the Earth?" (Luyten,
1964:231).
5 - Argumento lógico
(indutivo):
A SETI procura seu
substrato na concepção de que é extremamente provável a
existência de outras formas de vida inteligente na
Galáxia, daí justificando a destinação de verbas para a
busca radio-astronômica. Entretanto, cientistas como
Illies (1970), Crick (1981) e Crowe (1986)procuram
demonstrar o desacerto de tal raciocínio, baseado em
conceitos errôneos da teoria das probabilidades. Luyten
ironiza o uso vulgar da teoria das probabilidades que
muitas vezes é encontrado nas asserções pluralistas:
"...someone may cite d'Alembert's easy definition of
probabilities (that since all events either can or
cannot happen, the probability of any event's happening
is 50 percent) and come up with the conclusion that
therefore project OZMA has a 50-50 chance of immediate
success" (Luyten, 1962:992).
6 - Argumento da viagem
interestelar:
A reviravolta
singularista (anti-pluralista) iniciou-se, na década de
70, com a proposta de Hart, ao pretender ter demonstrado
que se existissem outras inteligências tecnológicas,
estas teriam tido tempo suficiente para colonizar a
Galáxia. Sua conclusão é a de que:
"uma extensiva pesquisa
de mensagens de rádio de outras civilizações é ,
provavelmente, um desperdício de dinheiro e tempo"
(Hart, 1975:135)
7 - Argumento
evolutivo:
Exposto por diversos
biólogos, que assim rejeitam a SETI, acentua as
evidências de que o processo evolutivo é marcado
fortemente pela casualidade, impossibilitando que se
façam ilações sobre a repetibilidade de formas de vida e
inteligência em outros planetas. O biólogo Carles,
contestando as especulações segundo as quais facilmente
iremos nos deparar com inteligências assemelhadas,
afirma:
"Na antiguidade, os
estóicos pensavam que o universo sem fim recomeça com os
mesmos acontecimentos e as mesmas pessoas. Teriam os
nossos cientistas regressado a esta visão estóica, a
esta palingenesia do universo, ou será que, muito
simplesmente, têm falta de imaginação e não podem
conceber um mundo diferente daquele em que vivemos?" (Carles,
s.d.:85).
As argumentações acima
listadas sintetizam as principais linhas de ataque no
front exobiológico. Como verificamos, sua natureza é
bastante distinta, em ambas as categorias. Variam desde
arrazoados e ilações lógicas até a mais simples e
singela expressão de um desejo individual. Muitos destes
são repetidos por ambas os grupos com finalidades
opostas. É o caso dos argumentos "evolutivo",
"oportunista" e da "incompetência".
Parece-nos plausível
concluir que o surgimento e a continuidade da SETI não
decorre dos procedimentos tradicionalmente associados ao
trabalho científico. Sua situação atual, nos limites da
ciência, é bastante particular. Excetuando-se as
exposições técnicas, ambas as facções utilizam-se de
variadas ideologias, associadas e decorrentes de visões
mais gerais sobre a constituição do universo. Concepções
como a de que a natureza é múltipla e variada, de que o
que sucede (ou sucedeu) na Terra deve reproduzir-se no
espaço não encontram ainda a insofismável base empírica,
tão sonhada pelos cientistas.
Entretanto, as
discussões apresentadas convergem com algumas teses
desmistificadoras propostas pela NSS (Nova Sociologia da
Ciência), demonstrando a existência de um complexo de
elementos utilizados para tornar vitoriosa um programa
de pesquisa.
Apesar da ausência de
base factual, o pluralismo é a posição dominante no meio
científico, atualmente, o que leva-nos a concluir que o
sucesso de uma idéia e a manutenção de um programa de
pesquisa (a SETI) podem encontrar seus alicerces apenas
no imaginário dos cientistas.
A sistematização acima
exposta permite-nos verificar que um novo campo de
estudos, na ciência, é decorrente não apenas de seus
sucessos empíricos, mas sim de uma combinação de
fatores, nos quais extrapolam-se os limites dos
laboratórios. Numa concepção positiva da ciência
não haveria lugar para a SETI. O fato desta ser
realizada é um forte indicador de que a ciência, de modo
geral, não é estritamente demarcada por tal positividade
e que, portanto, sua compreensão só se dá através da
admissão da presença de fatores sociais em sua
constituição. E foi justamente através do apelo
emocional que muitos pluralistas vêm sustentando suas
pesquisas, granjeando apoio popular com a retórica dos
supostos benefícios do contato.
O fato de que a
exobiologia ainda não dispõe de um objeto de estudo e
que sua legitimidade permanece em litígio não oblitera
outra realidade: a de que, na prática, esta já faz
parte da atividade científica, ou seja, é realizada
por um grupo de cientistas, trabalhando em instituições
científicas, com técnicas já tradicionais na ciência.
*O título do trabalho
refere-se à denominação da primeira rádio-SETI, o
"Projeto Ozma", ocorrido em 1960.
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