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Na Terra de Oz (parte 3 de 5)

por Eduardo Dorneles Barcelos


 

Crick aduz que:

"como não há evidência corroboradora nem refutadora, poderia ser classificada como científica, embora 'prematura'" (Crick, 1981:155).

 

e) variante da ciência não-baconiana:

A defesa da cientificidade da SETI flui de uma particular visão do que seja a ciência, como acontece na análise proposta pelo historiador Steven Dick:

"Na tradição da pluralidade dos mundos, como em outras áreas da ciência, a influência inconsciente da metafísica sobre a observação demonstra um componente não-metodológico do empreendimento científico, dado que a metodologia implica em um modus operandi consciente." (Dick, 1982:185) e : "nossa ciência...é caracterizada por uma similar influência recíproca entre teoria, metafísica, observação e imaginação, tão óbvia na tradição da pluralidade dos mundos. Apesar de todas estas dificuldades, a pesquisa de vida extraterrestre não foi, e não é, qualitativamente diferente de outros empreendimentos científicos" (Dick, 1982:187).

Neste caso, a explícita defesa de um modelo da ciência tem como conseqüência sua redefinição e a aceitação como parte da história e do presente desta.

 

f) variante da analogia:

Rejeitando a necessidade de "evidências tangíveis" para a realização de um trabalho científico, alguns autores tomam a analogia como base para extrapolações do conhecimento atual e a posterior busca de suas confirmação. Heffernan assim o faz, ao atacar os rígidos critérios metodológicos propostos por outro autor:

"In the absence of unambiguous evidence for or against extraterrestrial life, discussion had, and still has, to depend on analogies between conditions prevailing on earth, and those prevailing on other planets. Speculations should not be scorned, though, for reflection on plurality would not have advanced far if scientists had insisted on the kind of tangible evidence Hetherington's professionals demanded". (Heffernan, 1981: 530)

 

g) variante da ciência pura:

Na tradição dos ideais da assim chamada "ciência pura", a exobiologia encontra seu locus ao não ter, precisamente, uma justificação prática. É o que Chad sugere, ao referir-se ao trabalho do rádio-astrônomo e do exobiólogo (cf. também Johnston, 1990):

"which is an exercise in basic research with little or no Earthly benefits" (Chad, 1990:245).

 

10- Argumento experimental:

Abandonando o campo minado das polêmicas, propõe-se que estas devem ser esquecidas em prol do trabalho experimental, buscando as ETIs, independentemente da cientificidade das premissas do trabalho (cf. também Meisel, 1991). A chamada "Petição SETI" (documento de defesa da SETI, publicado na revista norte-americana Science, em 1982) alinha-se desta forma, quando diz-nos que:

"Somos unânimes em nossa convicção de que o único teste significativo da existência de inteligência extraterrestre é experimental. Nenhum argumento a priori sobre este tema pode sobrepujá-lo ou ser usado como um substituto para um programa observacional" (Sagan, 1982:426).

Para Tarter:

"Results will come, as they have in all fields of science, from precisely framed hypothesis and careful experiments designed to check them" (Tarter, 1990:245).

 

11- Argumento da incompetência:

Raramente, o debate transborda o território da impessoalidade e aloja-se nas falácias conhecidas como argumentos "Ad Hominem", ao atacar a reputação pessoal dos oponentes. É o que faz a normalmente ponderada astrônoma Jill Tarter, uma das líderes norte-americanas recentes da pesquisa, ao referir-se a um astrônomo anti-SETI:

"Verschuur startled the assembled scientists (at a meeting at the JPL in 1977) by suggesting they hire a mystic or guru on a mountaintop and meditate about the existence of other possible beings in the universe" (Tarter, 1990:245).

 

12- Argumento evolutivo:

Considerar a extensão universal dos processos biológicos sucedidos na Terra como um truísmo sustenta a maior parte dos argumentos pluralistas (pró-SETI), como exemplifica, entre outros, Oliver:

"To me, SETI is a search for proof that natural selection and evolution are ubiquitous and that they frequently lead to beings as complicated as humans" (Oliver, 1990:245).

 

CATEGORIA B:

 

1- Argumento epistemológico :

a) variante procariota:

O mais propalado dos argumentos anti-SETI lembra que até o momento não foi detectada qualquer forma de vida e inteligência extraterrestre, o que implica que estamos pretendendo defender a existência de uma ciência sem núcleo. Ciência especulativa não é ciência; logo, a SETI é injustificável. O biólogo norte-americano George Gaylord Simpson foi o principal porta-voz desta idéia, na década de 60, entrando em confronto, inúmeras vezes, e em diversas publicações, com os pluralistas:

"There is even increasing recognition of a new science of extraterrestrial life, sometimes called exobiology - a curious development in view of the fact that this "science" has yet to demonstrate that its subject matter exists!" (Simpson, 1964:769).

 

b)variante da fé:

A SETI não apenas é injustificável, como também seus propugnadores recaem num pecado mortal, qual seja, o de se terem tornado "crentes". A fé sempre foi rejeitada como componente do método científico e sua presença nunca admitida pelos seus praticantes. Entretanto, um historiador e um astrônomo lançam este apodo sobre os pluralistas (cf. também Ornstein, 1964; Simpson, 1964 e Dyson, 1979).

Para Crowe:

"Tais passagens (pluralistas) suportam a tese, avançada por Karl S. Guthke, em seu estudo sobre o debate da vida extraterrestre, que o pluralismo, outrora julgado uma heresia, tornou-se 'o mito dos tempos modernos' e uma 'religião ou religião alternativa'." (Crowe, 1986:559).

Verschuur assume a mesma bandeira, ao enquadrar a SETI como uma:

"technological search for God" (Verschuur, 1989:452),

acrescentando que:

"We hope that something, someone, will come to our aid, just as many people still implore their God for assistance in everyday matters. In an age when we project many of our deepest needs and fears into space - consider, for example, the popularity of UFO's and astrology - the idea of SETI is very seductive" (Verschuur, 1989:452).

 

c)variante cética:

A impossibilidade de, na fase atual do conhecimento, proferirmos afirmações convincentes sobre este tema implica que a SETI não deve ser considerada como uma ciência. Tal ceticismo fundamenta a posição de Jordan, quando comenta que:

"os nossos conhecimentos atuais de astronomia não são ainda suficientes de modo algum para saber com segurança se o nosso próprio sistema planetário constitui um fenômeno até certo ponto normal entre os 100.000 milhões de sóis da Via Láctea, ou se, pelo contrário, é uma formação estranha que se opõe a todas as leis da probabilidade." (Jordan, 1970:199).

 

d) variante do abismo cultural:

Voltando-se explicitamente contra as perspectivas "salvacionistas" de alguns exobiólogos, Regis investe contra a SETI com o instrumental da filosofia, procurando demonstrar a inutilidade ou impossibilidade de um contato inteligível com uma espécie inteligente extraterrestre, concluindo que:

"a descoberta das Américas não teve para os europeus os efeitos que os advogados da SETI insistem que a descoberta de ETI terá para nós. Isso não tornou mais triviais as diferenças entre os europeus, não serviu como influência integradora entre eles, não os tornou mais tolerantes nem amantes da paz." (Regis, 1985:242).

A existência de um "abismo cultural" entre duas quaisquer inteligências implicaria que o esforço da SETI é absurdo, pois não levaria a qualquer troca de informações e experiências.

 

e) variante popperiana:

Nesta ótica, rejeita-se a SETI na medida em que a maioria das propostas de pesquisa alicerça-se em hipóteses ou especulações que não podem ser refutadas; por exemplo, a idéia da "quarentena", segundo a qual as ETIs estariam escondidas no cinturão de asteróides do sistema solar, evitando intencionalmente qualquer contato.

É o que Crowe expõe, em seu detalhado estudo sobre a história do pluralismo:

"The generalized pluralist position is clearly unfalsifiable. If the moon be found bereft of life, Mars remains...if this fails, the past and future offer other opportunities. Even specific pluralist theories, for example, that of lunar life, have shown remarkable resistance to falsification" (Crowe, 1986:548).

 

2- Argumento da incompetência:

Simetricamente aos cientistas pró-SETI, argúi-se que o pluralismo decorre da incapacidade profissional dos astrônomos em tratarem de temas biológicos (i.e., a evolução de espécies inteligentes). Segundo Simpson (1964), os biólogos evolucionistas seriam unânimes em assegurar a elevada improbabilidade do desenvolvimento de espécies inteligentes:

Hetherington bate na mesma tecla, ao apresentar o diplomata e astrônomo amador norte-americano Percival Lowell como um "intruso" no meio astronômico profissional, cujas conclusões pluralistas não eram compartilhadas pelos cientistas do período. Desta forma, distingue entre a metodologia dos amadores (defesa de teorias "possíveis") e a dos profissionais (necessidade de comprovação empírica de qualquer teoria):

"The tradition represented by Lowell of speculative thought on a plurality of worlds was not an accepted part of professional science at the end of the nineteenth century" (Hetherington, 1981:161).

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