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Na Terra de Oz (parte 2 de 5)

por Eduardo Dorneles Barcelos


 

Oparin e Fesenkov asseveram que :

"L'idée même de l'universalité de la vie dans le monde était généralement admise comme hors de doute" (Oparin e Fesenkov, 1958:5).

Um dos pioneiros da SETI nos Estados Unidos, Otto Struve, assinala que:

"The hypothesis of the existence of intelligent life beyond the earth is almost as old as astronomy itself" (Struve, 1960:22).

 

3- Argumento da mediocridade:

A exobiologia tem sua cidadania científica garantida ao caracterizar-se como a busca de um fenômeno extremamente provável (a partir do que pode ser deduzido do conhecimento de outras áreas), probabilidade esta decorrente, também, da defesa de um princípio genérico, o chamado "princípio da mediocridade" (cf. também Huang, 1959:397; Macgowan & Ordway III, 1966:X). Como fica patente no texto de Shapley, trata-se de "acreditar" que as características locais podem ser extrapoladas ao universo e, assim, embasar a SETI.

Nas palavras do rádio-astrônomo Von Hoerner:

"Algo aparentemente único e peculiar a nós é realmente um dentre muitos e é provavelmente típico" (Hoerner, 1961:1839).

Na mesma linha, o conhecido astrônomo norte-americano Harlow Shapley conclui que:

"Nosso planeta é pequeno. Ele circula uma estrela comum e amarelada de meia idade. Esta estrela (o Sol) está localizada na tenuemente povoada estrutura externa de uma grande galáxia que contém ao redor de 100 bilhões de outras estrelas, das quais alguns bilhões devem ser essencialmente idênticas ao Sol. Que o nosso planeta seja o único lugar onde a vida emergiu seria uma suposição ridícula. Aqueles que conhecem o vasto número de estrelas, os caminhos naturais do surgimento dos planetas e o aparentemente automático modo com que a vida emerge quando as condições são adequadas - não mais hesitariam em acreditar que a vida é um fenômeno de extensão cósmica." (Shapley, 1963:62).

 

4- Argumento finalista:

A exobiologia é vista como o encerramento de ouro da mais importante teoria astronômica da Idade Moderna, o copernicanismo, e, assim, buscada ativamente como um complemento empírico de uma visão de mundo. É o que nos diz Newman:

"Há uma chance muito boa de que não estejamos sozinhos na Galáxia e que num futuro previsível pode ser encontrada a evidência que completará esta fase final da revolução intelectual Copernicana" (Newman,1964:141).

Referindo-se a uma pesquisa ortodoxa na astronomia (embora recente), vemos em Black que:

"The first positive sighting of a planetary system other than our own will be a landmark, completing the revolution in thought begun some 450 years ago by Nicolaus Copernicus" (Black, 1991:56).

 

5- Argumento marxista:

Recorrente na literatura de orientação marxista (basicamente da ex-União Soviética) é a concepção da necessária existência de ETIs, em vista do determinismo da evolução material, conduzindo ao surgimento da vida, inteligência e tecnologia. A SETI, portanto, implementa-se como parte da pesquisa daquilo que já se sabe, de antemão e por princípios filosóficos, existir (cf. também Kardashev, 1969; Chklovskii, s.d.). Os princípios filosóficos, como é constantemente anotado nestes autores, são os do materialismo dialético, ao definirem vida e inteligência como etapas do desenvolvimento da matéria, e, portanto, conduzindo ao surgimento de outros seres inteligentes na Galáxia.

Perelman expressa tais tendências de maneira bastante entusiástica:

"Tendo conquistado o Sistema Solar, a sociedade comunista dará um audacioso passo além, i.e., para as estrelas de nossa Galáxia, e então para outras galáxias; para visitar e estudar os sistemas planetários e civilizações de outros mundos de forma a trazer outras ilhas de inteligência..." (cit. em Cleaver, 1971:473).

Com maior certeza, Oparin e Fesenkov asseguram que:

"(La vie) apparait à une certaine étape du dévelopemment de la matière" (1958:14) e "Il ne fait nul doute que dans l'Univers, et notamment dans notre Galaxie, doivent exister de nombreuses planétes habitées" (Oparin e Fesenkov, 1958:16).

 

6- Argumento oportunista:

Independentemente da natureza da exobiologia, devemos operacionalizá-la como uma forma de aproveitamento parasitário da exploração espacial, tal como sugere Vishniac:

"The urgency in following a program of space biology is not an intrinsic one, it is imposed on us by external events". (Vishniac, 1964:245)

 

7- Argumento colonialista:

Os "colonialistas" partem do pressuposto de que formas de comportamento característicos de certas fases de certas sociedades humanas (isto é, o colonialismo) são universais, o que justificaria a busca de nossos "duplos" espaciais. O engenheiro Dole é bastante claro quanto a este aspecto (cf. também Shklovskii & Sagan, 1966:451), ao enfatizar, como um dos objetivos da exploração espacial:

"encontrar novos planetas habitáveis" (Dole, 1964:17)

dado que:

"Segundo se aumenta a população, haverá incentivos sempre crescentes para a emigração à próxima fronteira" (Dole, 1964:17). Dole postula a expansão galáctica como o "destino humano" (Dole, 1964:177), afirmando que:

"a futura história humana poderá ser escrita entre as estrelas" (Dole, 1964:178).

 

8- Argumento retórico (dupla negação):

Os artifícios retóricos entram em ação de maneira aguda quando recaímos no tema da inexistência de um objeto para a SETI. Como nada ainda foi comprovado, permanecendo irrespondíveis os argumentos dos detratores da exobiologia, costuma-se dizer que "não podemos dizer não" a possíveis ETIs, o que eliminaria, hipoteticamente, o problema.

Entretanto, os mesmos cientistas (p. ex. Shklovskii e Sagan) que rejeitam a ufologia devido à escassez de comprovação empírica, adotam atitude distinta em relação a SETI. Afinal, poderiam propor os "ufólogos", também não podemos dizer não aos discos voadores...

É num de seus mais famosos paladinos que nos deparamos com a assertiva de que:

"Não se conclui, contudo, que as investigações sobre inteligência extraterrestre sejam cientificamente supérfluas..." (Shklovskii e Sagan, 1966:10).

De forma semelhante, escreve McDonough:

"Tirar a conclusão apressada de que eles não estão lá simplesmente porque nós não os vemos facilmente é recair no mesmo erro cometido pelas pessoas a respeito da vida microscópica...O mundo estava apinhado de animais microscópicos, mas como ninguém os via, eles não existiam" (McDonough, 1987:198).

Para Gurevich e Chernin:

"É possível que um processo evolucionário similar, levando ao aparecimento da vida e então a formas de inteligência superior, poderia ter lugar em outro planeta, em outros sistemas estelares? Parece que não há base para renegar tal possibilidade" (Gurevich e Chernin, 1987:199).

 

9- Argumento epistemológico:

a) variante da valorização teórica:

A "seriedade" da SETI decorre de um destaque dado à criação teórica no interior da ciência, e conduzindo, ao segundo plano, a corroboração observacional e experimental. Legitima-se, assim, a pesquisa, ao priorizar certa feição da atividade científica.

É o que Halasz defende:

"Propositions can be declared meaningless on their face only if they are about entities undetectable in principle. As to practice, new instrumentation reveals former unobservables almost every year, many of which were discussed theoretically prior to detection" (Halasz, 1964:614).

 

b) variante da crença racional:

A impossibilidade de traçar afirmações positivas sobre o assunto conduz a justificativas como a de que a SETI baseia-se numa crença. Esta, entretanto, e distintamente da religiosa, seria "racional", pois fundada em argumentos razoáveis, a partir da aplicação de deduções lógicas sobre princípios filosóficos previamente admitidos, tal como o "princípio da mediocridade". Esta é a linha de sustentação de MacGowan e Ordway:

Ainda que o homem não possa saber com certeza se há vida inteligente além do Sistema Solar, pode ao menos fazer suas reflexões, deduzindo conclusões razoáveis de um conjunto de fatos concretos, extrapolações de fatos, julgamentos e interpretações baseadas nos mesmos - acompanhados de séria especulação" (MacGowan e Ordway, 1966:16).

 

c) variante da ciência caudatária:

A exobiologia encontra seu locus científico, nesta linha de raciocínio, através da dependência de ciências historicamente estabelecidas. Como receptora dos métodos e produtos destas, poderia ser considerada como um trabalho legítimo, embora não preenchendo, ainda, todas as características esperadas de uma ciência.

É o que nos afirma Gindilis:

"estas investigações podem basear-se, em princípio, nos sucessos da astronomia, radioastronomia, cibernética, teoria matemática das comunicações, etc... Dadas estas condições, parece-me ser um erro exigir provas independentes que confirmem a existência de civilizações extraterrestres antes que iniciemos esta investigação sistemática" (in Sagan, 1973:145-146).

O astrônomo soviético Ambartsoumian segue o mesmo pensamento ao listar a radioastronomia, a cibernética, a biologia e a exploração espacial como campos que:

"criaram uma situação em que a discussão sobre CETI (Communication with Extraterrestrial Intelligence) pode resultar bastante frutífera" (in Sagan, 1973:24).

 

d) variante da ciência infante:

Aproximando-se da idéia de uma ciência pré-paradigmática, alguns defensores da SETI sugerem que todas as ciências passaram por uma fase problemática de afirmação e que, portanto, não se pode negar sua legitimidade. Dois biólogos delineiam tal assertiva. Para Orgel:

"num estágio inicial do desenvolvimento de uma ciência, a ignorância deste tipo não é incomum e, certamente, não é causa para embaraços" (Orgel, 1973:189).


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