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NA TERRA DE OZ - Os debates sobre a pesquisa de vida e
inteligência extraterrestre (1959-1993)*
por Eduardo Dorneles Barcelos
(In memorian)
*
Originalmente publicado na
Revista da Sociedade Brasileira de
História da Ciência, n. 10, p. 29-42, 1993.
Publicado neste site com autorização do autor
Os estudos científicos
de vida e inteligência extraterrestre, também conhecidos
como exobiologia, vêm sendo desenvolvidos com celeridade
nos Estados Unidos, a partir de outubro de 1992.
Entretanto, a evolução deste intrigante campo do
conhecimento científica tem recebido pouca atenção dos
historiadores e cientistas sociais (Barcelos, 1991:1;
Naeye, 1992:507; Shostak, 1992:26).
Desde o início da
década de 1960, astrônomos e biólogos, na Europa,
Estados Unidos e Rússia, vêm se envolvendo com a
pesquisa das possibilidades de existência de formas de
vida e inteligência extraterrestre. Utilizando-se de
espaçonaves automáticas para a busca in loco de
vida no Sistema Solar e radiotelescópios para a detecção
de transmissões de rádio de civilizações tecnológicas
próximas, os assim chamados exobiólogos trazem para o
interior das ciências naturais um tema que pertencia a
outros domínios.
A exobiologia, dada sua
problemática inserção na ciência contemporânea (cf.
Ferris, 1993), posto que ainda não demonstrou a
existência de seu objeto de estudo, ilustra de maneira
particularmente incisiva uma das características
subterrâneas da constituição e delimitação de um novo
campo de atividades. A revisão da literatura
exobiológica permite verificar que os raciocínios
utilizados, em múltiplos casos, não se diferenciam
daqueles comumente encontrados na vida cotidiana. Para
acatar ou rejeitar a SETI (Search for Extraterrestrial
Intelligence), os cientistas afastam-se das normas da
neutralidade, impessoalidade, objetividade, etc...,
expondo suas idiossincrasias particulares. Nas palavras
de Henbest, ao revisar uma coletânea de entrevistas de
cientistas pioneiros da exobiologia, "SETI (é) uma
ciência ideal à investigação sociológica" (Henbest,
1991:56).
O que percebemos é que,
paralelamente à produção de natureza técnica, os artigos
envolvem, de forma significativa, contendas a respeito
da natureza mesma deste estudo, ou seja, se este pode ou
não ser entendido como uma ciência (ainda que
emergente).
As fontes utilizadas
abrangeram periódicos e livros científicos e de
divulgação científica. A seleção das fontes decorre da
necessidade de abranger as publicações que veiculem as
discussões "não-técnicas" do assunto, tais como as
referentes à categorização cognitiva da exobiologia (cf.
também Woolgar, 1976:396).
Intentamos examinar a
polêmica a respeito da cientificidade da exobiologia,
através da argumentação utilizada pelos diferentes
grupos participantes. Tais grupos serão definidos em
função de seu posicionamento a respeito da natureza da
exobiologia, ou seja, se esta pode ou não ser
considerada como parte legítima da atividade científica.
Observaremos que o
posicionamento específico de muitos analistas está
diretamente ligado a sua concepção da natureza da
ciência. Caminhamos, deste modo, em direção à
epistemologia do conhecimento, temática sempre elidida
na produção científica das ciências exatas.
Para evitar
sobrecarregarmos o texto, optamos por sumariar,
inicialmente, o núcleo dos argumentos, transcrevendo,
após, parte dos escritos dos autores.
Visualizaríamos duas
grandes correntes nas polêmicas:
a) científica -
identificando a exobiologia como parte legítima da
pesquisa científica, definem esta de maneira bastante
flexível; defendem a manutenção e/ou ampliação das
atuais pesquisas;
b) não-científica -
negando a cientificidade da exobiologia, alinham-se com
uma idéia standard do empreendimento científico;
geralmente, lançam-se contra a existência de uma SETI.
Embora existam alguns
autores cujos pronunciamentos sejam ambíguos, podemos
esquematizar o debate no par de opostos "a" e "b". A
revisão da literatura corrente permite arrolar uma longa
série de arrazoados, abaixo relacionados.
Em síntese, as
argumentações organizam-se da seguinte maneira:
CATEGORIA A:
1- Argumento do
benefício:
a: variante do contato:
ai) científico
aii)moral
b)indireto
2 - Argumento histórico
3- Argumento da mediocridade
4- Argumento finalista
5- Argumento marxista
6- Argumento oportunista
7- Argumento colonialista
8- Argumento retórico (dupla negação)
9- Argumento epistemológico
a) variante da
valorização teórica
b) variante da crença racional
c) variante da ciência caudatária
d) variante da ciência infante
e) variante da ciência não-baconiana
f) variante da analogia
g) variante da ciência pura
10- Argumento
experimental
11- Argumento da incompetência
12- argumento evolutivo
CATEGORIA B:
1- Argumento
epistemológico :
a)variante procariota
b)variante da fé
c)variante cética
d) variante do abismo cultural
e) variante popperiana
2- Argumento da
incompetência
3- Argumento psicológico
a) variante da projeção
de desejos
b) variante da salvação
c) variante da rejeição do geocentrismo
4- Argumento
oportunista
5- Argumento lógico (indutivo)
6- Argumento da viagem interestelar
7- Argumento evolutivo
CATEGORIA A:
1- Argumento do
benefício:
a: variante do contato:
ai) científico:
A moeda corrente na
SETI é a de que devemos buscar as ETIs (Extraterrestrial
Intelligence) dado o inevitável enriquecimento
tecno-científico de toda a humanidade, garantido pelo
acesso ilimitado a novos dados e teorias (cf. também
Cocconi e Morrison, 1959:846; Macgowan & Ordway III,
1966:3; McDonough, 1987:206-207).
Para Chandler,
referindo-se a um possível contato com marcianos
inteligentes:
"We would
have passed from the infancy of our global insularity,
passed the initiation into a galactic brotherhood"
(Chandler, 1979:188)
Fernandez assinala que:
"Mas allá de satisfacer
nuestra curiosidad natural, redundará en incalculables
beneficios para el desarrollo de la ciencia y la
tecnología" (Fernandez, 1988:13-14).
aii) moral:
A lista de exemplos
abaixo evidencia uma das mais populares, e vagas,
justificativas da SETI. Implícita nesta está a idéia de
que entraremos em contato com "seres superiores",
através de uma pretensa união internacional de
pesquisadores, desprendidos e com objetivos puramente
cognitivos (cf. também Morrison, in Sagan, 1973:318).
Michaud escreve que:
"Enquanto procuramos
por inteligências extraterrestres, devemos nos preparar
intelectual e culturalmente para o contato... O contato
irá requerer que pensemos como uma espécie; responder
implicará em mudanças políticas e sociais que permitirão
que falemos como um só, talvez através de uma nova
instituição global" (Michaud, 1979:117).
Segundo McDonough:
"Para alguns, a mera
esperança que resultaria se descobríssemos que outras
civilizações sobreviveram ao tipo de perigo global com
que nos defrontamos atualmente é razão suficiente para
suportar a SETI" (McDonough, 1987:151).
Já o instrumento
normativo da SETI assinala que esta:
"Is an
integral part of space exploration and is being
undertaken for peaceful purposes and for the common
interest of all mankind" ("Declaration of Principles
Concerning Activities Following the Detection of
Extraterrestrial Intelligence" - International Academy
of Astronautics) ("Contact, 1991; Overbye, 1990:48).
Sullivan
III aponta que:
"The very
efforts that go into searching for others ironically and
inevitably lead to a better understand of ourselves"
(Sullivan III, 1990:246).
b) indireto:
Neste caso, argúi-se
que, na pior das situações (correspondendo a uma
prolongada não detecção de ETIs), a SETI serviu ou para
o aperfeiçoamento instrumental da astronomia
tradicional, através de subprodutos de sua atividade, ou
então para o descobrimento de novos fenômenos. A
exploração espacial, também, em muitas ocasiões de
declínio de verbas, serviu-se de tal idéia, ao afirmar
que as panelas teflon resultaram da corrida espacial!
(cf. também Struve, 1960:22).
Nesse
sentido, McDonough aduz que:
"Throughout history, every time we have turned a new
kind of telescope on the sky, we have always found
surprises. So, let's continue the SETI search. At worst,
we'll discover wonderful celestial bodies never before
seen by human beings" (McDonough, 1990:16).
2- Argumento histórico
:
Como diversos estudos
já demonstraram (Crowe, 1986; Dick, 1982; Duhem, 1985;
Hetherington, 1989; Rossi, 1992), a busca de vida e
inteligência extraterrestre tem uma extensa trajetória.
A ala pró-SETI aproveita-se de tal evidência histórica
como base para que o estudo prossiga contemporaneamente.
O passado torna-se o substrato do presente, ao alicerçar
uma pesquisa em construção (cf. também Ashbrook,
1961:85; Anderson, 1960:374; Tsvetikov, 1960:872). Para
Shklovskii e Sagan:
"Com o desenvolvimento
da astronomia, o conceito da existência de vida em
outros mundos começou a adquirir algumas bases
científicas" (Shklovskii e Sagan, 1966:3).
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