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Os ufólogos alienistas
por
Marcelo Kunimoto
Texto
originalmente publicado no site
Ceticismo
Aberto
“A mais excitante
expressão a se ouvir na ciência, a que anuncia novas
descobertas, não é ‘Eureka!’ mas ‘Que estranho...’ ”
– Isaac Asimov
No
célebre conto de Machado de Assis, o respeitado Dr.
Simão Bacamarte é o Alienista que resolve aplicar na
pequena cidade de Itaguaí suas revolucionárias teorias
sobre a sanidade – ou a loucura, e vice-versa. Empolgado
com o prospecto de revolucionar o mundo, empreende sua
“experiência científica” almejando demarcar
definitivamente os limites da razão e da loucura. “A
razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades;
fora daí insânia, insânia e só insânia”.
Graças a este radicalismo, ao seu status, à politicagem
e principalmente porque Machado de Assis estava
escrevendo uma boa história, o Alienista começa a
declarar alienado qualquer infeliz que apresentasse
qualquer desequilíbrio por momentâneo que fosse. Como
todos nobres cidadãos de Itaguaí eventualmente agem de
forma incongruente, aliás como todo ser humano normal,
no auge da ‘experiência’ o Alienista tem na Casa Verde,
o imponente manicômio por ele criado, nada menos que
quatro quintos de toda população da cidade. É então que
finalmente percebe que algo está errado e em uma decisão
“racional” formula uma nova teoria sobre a sanidade – ou
a loucura, e vice-versa.
Por conseguinte uma teoria completamente oposta à
anterior que o leva a liberar todos os antigos
inquilinos da Casa Verde, declarando-os cidadãos sãos.
Em sua nova teoria devia-se admitir como normal o
desequilíbrio das faculdades e como hipóteses
patológicas todos os casos em que o equilíbrio fosse
ininterrupto. O Dr. Simão Bacamarte eventualmente
descobre que a única pessoa em Itaguaí que nunca
apresentou nenhum desequilíbrio das faculdades é ele
mesmo. O Alienista declara-se então alienado e
interna-se sozinho na Casa Verde, onde vem a morrer
alguns meses depois sem conseguir ‘curar’ a si mesmo.
Depois de sua morte e de um solene enterro, correram
boatos de que desde o princípio o alienado na cidade era
o Alienista. São apenas boatos entretanto, e pelo visto
sem fundamento.
A ufologia está repleta de Alienistas. Não, não aqueles
que declaram alienado todo sujeito com pequenos lapsos
de razão, e sim aqueles que declaram alienígena todo
acontecimento minimamente estranho ou aparentemente
inexplicável. Seu raciocínio é algo como “O terrestre
é tudo aquilo facilmente compreensível; fora daí
alienígena, alienígena e só alienígena”. Vacas
mutiladas? Alienígena. Marcas e objetos estranhos pelo
corpo? Alienígena. Objetos caindo do céu? Sinais no
radar? Borrões em filmes? Luzes no céu? Obviamente
alienígenas.
Os ufólogos Alienistas infelizmente transformaram a
própria ufologia em sua Casa Verde, uma casa repleta de
inquilinos declarados como alienígenas ao menor sinal de
estranheza. Apesar disso, como não poderia deixar de
ser, o mundo não é como os Alienistas imaginam. Se um
homem resolve colecionar latinhas de cerveja, isso pode
questionar seu gosto mas por si só não o declara como
insano. Todos nós temos nossas idiossincrasias. Para que
o sujeito seja declarado mentalmente desequilibrado, não
só é preciso que ele comece a falar com as latinhas, mas
que elas comecem a lhe responder.
Da mesma forma, se algo de estranho é visto nos céus,
detectado no radar, deixa marcas pelo chão ou o que for,
permanecendo sem identificação mesmo após exaustivas
investigações, isso por si não classifica o evento como
alienígena. Para isso é preciso não só evidência física,
concreta, comprovável e da mais alta qualidade de que o
evento ocorreu como se relata, mas que ele ocorreu e foi
de fato alienígena. Sem ela, nós podemos ter à nossa
frente um evento estranho, mas assim como nem todo
colecionador de latinhas é alienado, nem todo evento
estranho é alienígena. Em um mundo, o nosso mundo, onde
acontecem tantas coisas, não seria esperado que algumas
fossem estranhas e inexplicáveis? Blaise Pascal enunciou
uma metáfora fascinante sobre o avanço da ciência e o
desconhecido: “O crescimento do conhecimento é como
uma esfera em expansão no espaço: Quanto maior nosso
entendimento (simbolizado pelo volume da esfera), maior
o nosso contato com o desconhecido (a superfície da
esfera).”
O erro dos ufólogos Alienistas parece ser a mesma
presunção do Alienista de que tudo pode ser seguramente
explicado e definido através de um simples estudo
limitado e ambicioso, cheio de certezas. Eles se sentem
satisfeitos em declarar UFOs inexplicados como objetos
alienígenas. A conseqüência disto é que como o
Alienista, estão lotando sua Casa Verde sem chegar ao
que pretendem.
Quando o Alienista Simão Bacamarte constatou que sua
Casa Verde abrigava quatro quintos da população local,
notou que algo estava errado. Os ufólogos Alienistas
devem notar que sua ufologia já está repleta de
inquilinos, todos supostamente alienígenas. Se seu
trabalho foi realmente bem-feito, já está na hora do
mundo tomar conhecimento dos incríveis e sólidos casos
alienígenas que habitam a ufologia. Porém, quando
pedimos que eles tragam seus inquilinos mais seguramente
alienígenas, eles nos trazem casos um tanto estranhos
mas sem evidências realmente sólidas de que são
alienígenas. Seus melhores inquilinos parecem ser
colecionadores de latinhas esquisitos, às vezes muito
esquisitos, mas ainda não seguramente loucos. Os
Alienistas vêem os alienígenas que estão desde o início
em suas próprias cabeças.
Há uma última grande lição de 'O Alienista' à ufologia:
Simão Bacamarte errou ao ir de um extremo ao outro,
liberando todos os inquilinos do manicômio quando viu
que algo estava errado com seus métodos. Entre os
declarados mentalmente equilibrados estavam legítimos
alienados. Quando percebemos que há algo errado com a
ufologia dos Alienistas devemos ter o cuidado de não
fazer o mesmo, jogando fora o bebê com a água da
banheira. Podem existir legítimos alienígenas dentro da
ufologia. Se a desconsiderarmos por completo corremos o
risco de estarmos todos alienados, sem nunca
descobrirmos se há realmente algo por aí além de nossas
próprias alienações – que ironicamente demonstram ser o
maior obstáculo na busca verdadeira por alienígenas.
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